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Jejum de Ekadasi todas histórias 1


Srila Prabhupada certa vez comentou que uma brilhante qualidade da literatura védica é sua apresentação variada de diferentes sendas para diferentes classes de seres humanos. Assim encontramos dezoito Puranas, por exemplo - seis para aqueles no modo material da bondade; seis para aqueles na paixão, e seis para os na ignorância. Adicionalmente, encontramos o filosóficos Upanishads, os concisos, sofisticados Vedanta-sutras, majestosos e atraentes épicos como o Mahabharata e Ramayana, bem como muitos outros tipos de escrituras .

 

Todos estes livros védicos tem uma meta comum, conforme expressa no Bhagavad-gita 15.15: vedais ca sarvair aham eva vedyah. "Eu, (o Senhor Krishna) posso ser conhecido através de todos os Vedas." Assim as literaturas védicas se dirigem a todos seres humanos, em qualquer estado de evolução espiritual ou decadência que possam estar, ocupando-os, progressivamente, na senda da perfeição humana, culminando em amor puro por Deus, consciência de Krishna.

 

Este fascinante livro sobre o sagrado dia de Ekadashi, traduzido com tanta capacidade por Sua Santidade Krishna Balaram Swami, ilustra poderosamente o andamento dinâmico da literatura védica. Primeiramente, o livro é autorizado, por ser uma tradução de escrituras padrão tais como o Bhavishya Purana, Brahmanda Purana e Skanda Purana e consistindo em sua maior parte de conversas entre o próprio Senhor Krishna e grandes devotos como o Rei Yudhishthira.

 

Frisamos ainda, que as bençãos obtidas por observar Ekadashi irão apelar claramente a uma larga faixa de praticantes espirituais. Assim, por exemplo, pessoas ocupadas em vida familiar serão atraídas pelas bençãos de bons filhos, prosperidade, etc., ao passo que aquelas que transcenderam tais apegos serão motivadas pela oportunidade de rapidamente obter amor puro por Deus.

 

É claro, a verdadeira glória de Ekadashi é que todas classes de seres humanos podem rapidamente progredir rumo à meta de pura consciência de Krishna por observarem corretamente este sagrado dia. O próprio Sri Chaitanya Mahaprabhu observava Ekadashi estritamente, e Ele exigia que Seus seguidores fizessem o mesmo. Uma leitura sincera deste livro não poderá deixar de aumentar, de forma dramática, nossa compreensão desta importante observância. O autor, Krishna Balaram Swami, dá um exemplo ideal neste sentido, observando estritamente Ekadashi, e ele nos deu uma literatura consciente de Krishna importante e iluminadora.

 

Hridayananda das Goswami

Governing Body Commissioner for

the International Society for Krishna Consciousness

(GBC da ISKCON)

 

 

PREFACIO

 

 

As publicaçöes do Bhaktivedanta Institute (BBT) lidam com as conclusöes científicas e teológicas dos antigos escritos conhecidos como Vedas. Os Vedas formam a base de uma civilização e cultura que dão suprema importância à elevação da alma do aprisionamento mundano. Assim a cultura védica nos ensina a adotar um estilo de vida disciplinado, consciente de Deus, de modo que a alma possa experiemntar ilimitada felicidade desenvolvendo plena consciência divina, ou consciência de Krishna.

 

Na disciplina de consciência de Krishna, jejuar a intervalos regulares é altamente recomendado tanto para a melhora física como espiritual. A ciência da nutrição ensina que o jejum periódico beneficia grandemente o corpo dando aos órgãos digestivos um descanso e permitindo limpeza interna. O corpo então funciona mais eficientemente. Até mais importante para devotos de Krishna, contudo, é o benefício espiritual a ser obtido por jejuar em certos dias auspiciosos, seguindo estritamente as regras e regulaçöes. Assim devotos conscientes de Krishna são orientados a jejuarem duas vezes por mês, no décimo primeiro dia das luas crescente e minguante. Conforme descrito neste livro, quem jejua neste dia, chamado Ekadashi, obtém não só benefício físico, porém tremendo benefício espiritual.

 

O Instituto Bhaktivedanta está extremamente satisfeito por apresentar este belo livro - Ekadashi, o Dia do Senhor Hari - por Sua Santidade Krishna Balaram Swami, um membro do Instituto. Krishna Balaram Swami é um estudioso de sânscrito e possui extensa experiência em seguir as práticas devocionais desde a infância. Ele traduziu diligentemente estes capítulos de vários Puranas para nossa edificação. Esperamos que este livro inspire muitos buscadores sinceros da Verdade Absoluta, o Senhor Sri Krishna, a começar a observar seriamente Ekadashi.

 

Bhaktisvarupa Damodara Swami

Diretor Internacional

Instituto Bhaktivedanta

 

 

O MESTRE ESPIRITUAL PERFEITO

 

 

Sua Divina Graça A.C. Bhaktivedhanta Swami Prabhupada apareceu numa família de devotos conscientes de Krishna em 1896 em Calcutá, India. Desde sua infância ele demonstrava sinais de ser um devoto puro do Senhor, ocupando-se em kirtanas e peças teatrais conscientes de Krishna na escola. Seu pai, Gour Mohan De, deu-lhe treinamento espiritual adequado.

 

Srila Prabhupada conheceu seu mestre espiritual Srila Bhaktisidhanta Saraswati Goswami (1874-1937) em Calcutá, em 1922. Srila Bhaktisidhanta Saraswati, fazia parte da sucessão discipular Brahma-Madhva-Gaudiya Sampradaya, sendo um grande expoente e erudito em filosofia consciente de Krishna, além de fundador de sessenta e quatro Gaudiya Maths na India. Em seu primeiro encontro, Srila Prabhupada recebeu as instruçöes que o inspirariam a provocar uma revolução espiritual no mundo. Srila Bhaktisidhanta Saraswati disse: "Você é um jovem rapaz educado. Porque não prega a mensagem do Senhor Chaitanya Mahaprabhu pelo mundo inteiro?" Embora os seguidores dos Vedas adorassem o Senhor Krishna, a Suprema Personalidade de Deus, desde tempos imemoriais, esta genuína filosofia e literatura transcendental permaneciam desconhecidas fora da India. Ao seguir seu mestre espiritual, Srila Prabhupada iria se tornar um elo de importância capital na transmissão dos ensinamentos originais enunciados pelo próprio Senhor Krishna.

 

Em 1944 Srila Prabhupada fundou De Volta Ao Supremo, uma revista em idioma inglês que expunha a ciência transcendental da consciência de Krishna. Usando seu próprio dinheiro e trabalhando sem assistentes, ele escrevia, revisava, editava, imprimia e distribuía a revista por todo norte da India.

 

Nos anos que se seguiram, Srila Prabhupada sonhou várias vezes que Srila Bhaktisidhanta Saraswati lhe dizia para deixar a vida de chefe-de-família e aceitar a ordem espiritual mais elevada, a ordem renunciada de sanyasa. Quando Srila Prabhupada teve este sonho novamente em Vrindavana, a sagrada terra mais querida de Krishna, resolveu aceitar o desafio.

 

Em setembro de 1959 Srila Prabhupada aceitou o voto de renúncia das mãos do famoso sábio Srila Kesava Maharaja em Mathura, recebendo o nome de A.C. Bhaktivedhanta Swami. Como sanyasi, Srila Prabhupada estava em posição ideal para realizar a ordem de seu mestre espiritual, porém primeiro ele precisava de livros e assistência financeira para viajar aos Estados Unidos.

 

Dependendo plenamente da misericórdia do Senhor Krishna, Srila Prabhupada começou um projeto literário monumental - a produção de uma tradução para o inglês com anotaçöes elaboradas do Srimad Bhagavatam de Srila Krishna-Dvaipayana Vyasa, a encarnação literária de Deus. O Srimad Bhagavatam, uma escritura enciclopédica, frequentemente é chamado de "nata das literaturas Védicas" porque lida exclusivamente com a personalidade e passatempos transcendentais de Deus. Srila Prabhupada lutou sozinho, escrevendo e editando esta grande obra e coletando fundos para imprimir os primeiros três volumes. Após completar o primeiro volume, ele presenteou uma cópia ao primeiro-ministro da India, Lal Bahadur Shastri, o qual apreciou o trabalho erudito de Srila Prabhupada.

 

Em 1965 o caminho finalmente estava livre para que Srila Prabhupada embarcasse em sua jornada histórica ao ocidente. A linha de vapores Scindia deu-lhe passagem grátis a bordo do cargueiro Jaladuta, e em agosto de 1965 Srila Prabhupada deixou a India com um caixote de seu Srimad Bhagavatam, um par de karatalas (címbalos), e quarenta rúpias indianas (aproximadamente sete dólares).

 

A viagem de quarenta dias revelou-se árdua. Apenas alguns dias no mar, e já o Jaladuta passava por pesadas tempestades, e Srila Prabhupada sofria não só com o enjôo do mar, mas também teve dois ataques cardíacos. Por duas noites consecutivas vieram os ataques, e com sua idade de sessenta e nove anos ele sabia que podiam ser fatais. Na terceira noite, sonhou que o próprio Senhor Krishna o impelia e oferecia toda proteção. Os ataques não retornaram.

 

Quando o Jaladuta finalmente aportou no porto de Boston em 17 de setembro, 1965, Srila Prabhupada escreveu: "Meu querido Senhor Krishna, és tão caridoso para com esta alma inútil, porém não sei porque Me trouxeste aqui. Agora podes fazer o que quiseres comigo... Como farei os ocidentais compreender a mensagem da consciência de Krishna? Sou muito desafortunado, desqualificado, e muito caído. Portanto, estou buscando Tua benção para que possa convencê-los, pois sou incapaz de fazê-lo por conta própria.

 

Então, com seus livros e um dinheirinho, Srila Prabhupada entrou na maior metrópole do mundo, New York City. Durante o inverno de 1965-66 ele lutou no clima frio, vendendo algumas cópias de seu Srimad Bhagavatam a estranhos curiosos. Apesar das dificuldades, continuou a escrever. Eventualmente, mudou-se para o Lower East Side de Manhattan, alugando um apartamento e uma pequena lojinha na 26ª Avenida.

 

Brevemente espalhou-se a notícia entre os jovens buscadores da verdade espiritual que um swami tinha vindo com um "método de yoga espiritual especial", o cantar do Hare Krishna mantra. Em julho de 1966 Srila Prabhupada oficialmente formou a Sociedade Internacional para Consciência de Krishna (ISKCON) junto com alguns discípulos. Logo levou seus primeiros discípulos para o Parque de Washington Square ali perto, para a primeira sessão de cantar Hare Krishna em público. Sua pequena lojinha estava começando a atrair atenção no Lower East Side. Apesar de suas regras estritas - não comer carne, nem praticar sexo ilícito, não intoxicar-se nem jogar, brevemente atraiu um séquito pequeno porém dedicado.

 

Dentro de alguns meses Srila Prabhupada tinha aberto centros em São Francisco, Montreal, Boston, Los Angeles, e Búfalo. Fundou Nova Vrindavana (comunidade agrária) na Virginia ocidental e introduziu no ocidente o sistema gurukula de educação. Srila Prabhupada também inspirou a construção de diversos grandes centros culturais internacionais na India, tais como o Sri Chaitanya-chandrodaya Mandir na Bengala ocidental, o Templo e Hospedaria de Krishna-Balaram em Vrindavana, e um grande centro educacional e templo em Bombay. Antes de Srila Prabhupada falecer em 1977, viu seu movimento Hare Krishna se espalhar pelo mundo todo, com centros na maioria das cidades grandes da América, Europa, Africa, Asia e Australia.

 

Embora viajando constantemente - realizou nada menos que quatorze tours mundiais em doze anos - Srila Prabhupada nunca parou de escrever sobre a ciência da consciência de Krishna. Mais de oitenta volumes de seus livros foram publicados em mais de trinta idiomas, e mais que 150 milhöes de unidades de sua literatura tem sido distribuídas mundialmente. Estes livros incluem o Bhagavad-gita Como Ele É (1968), Ensinamentos do Senhor Chaitanya (1968), Krishna, a Suprema Personalidade de Deus (1970), O Néctar da Devoção (1970), os dezessete volumes do Sri Chaitanya-caritamrita (1973-75) e trinta volumes do Srimad Bhagavatam (1962-1977). Onde quer que Srila Prabhupada fosse, ele traduzida literatura védica e nutria seus discípulos e o movimento.

 

Srila Prabhupada realizou estas façanhas inconcebíveis entre a idade de sessenta e nove e oitenta e um, através de grande esforço pessoal e fé inabalável em Krishna, o Senhor Supremo. Aqui mencionamos apenas algumas de suas realizaçöes transcendentais. Sua biografia completa, por Satsvarupa dasa Goswami, já está disponível. Chama-se Srila Prabhupada-lilamrita.

 

É claro que Srila Prabhupada não era um espiritualista qualquer, mas sim, um grande santo escolhido e empoderado pelo Senhor Krishna para trazer as pessoas do mundo ao reino de Deus, entregando-lhes o processo puro de consciência de Krishna. A contribuição mais significante de Srila Prabhupada nesse sentido são seus livros, altamente respeitados pela comunidade acadêmica por sua autoridade, profundidade, e clareza. Na verdade, servem como livros-texto em vários cursos universitários. A Bhaktivedhanta Book Trust, estabelecida em 1972 para publicar suas obras, tornou-se a maior editora mundial no campo da religião e filosofia indiana. Os livros de Srila Prabhupada poderão beneficiar toda humanidade, pois as palavras deste mestre espiritual perfeito podem salvar qualquer pessoa deste mundo hipócrita e miserável e mostrar o caminho para retornar ao lar, de volta para Deus.

 


INTRODUÇÃO

 

 

"Se uma pessoa jejuar no Ekadashi, queimarei todos seus pecados e concederei a ela Minha morada transcendental... De fato, Ekadashi é o dia mais meritório para destruir todos tipos de pecado, e apareceu a fim de beneficiar todos." (Senhor Krishna para Arjuna, Capítulo I)

 

Como o Senhor Krishna, a Suprema Personalidade de Deus, disse no Bhagavad-gita 15.7, as entidades vivas debatendo-se neste mundo material são eternas centelhas espirituais, parte e parcela Dele, o Espírito Supremo do Todo. Como a função da parte é naturalmente a de servir o todo, a função natural da entidade viva é servir o Senhor Krishna. Mas esta função se tornou artificialmente encoberta pela ignorância devido ao contato da entidade viva com a natureza material. Em vez de servir Krishna, esta se identifica com seu corpo e mente, e tenta assenhorear-se da energia material de Krishna. Esta contaminação, conhecida como falso-ego ou falsa identificação com a matéria, é a fonte de todo sofrimento para a alma. Mas assim como a água contaminada pode ser filtrada e destilada, e assim trazida de volta ao estado normal, puro, também a entidade viva contaminada pelo falso-ego pode ser purificada pelo processo transcendental de consciência de Krishna. Uma das principais partes deste processo é a observância de jejum no Ekadashi.

 

Ekadashi é um dia de austeridade observado regularmente por aqueles que seguem sanatana-dharma, ou consciência de Krishna. Eka significa "um", e dashi é a forma feminina da palavra dasha, que significa "dez". Ekadashi é portanto o décimo primeiro dia da quinzena clara e obscura de cada mês. Nestes dias especiais devotos jejuam de grãos e feijões e fazem um esforço extra para prestarem serviço devocional à Suprema Personalidade de Deus, o Senhor Sri Krishna. Como declara Sua Divina Graça A.C. Bhaktivedanta Swami Prabhupada, o fundador-acharya da ISKCON, no Bhagavad-gita Como Ele É 9.14, significado, "No serviço devocional há certas atividades que são chamadas determinadas, tais como jejuar em certos dias, como o décimo primeiro dia da lua, Ekadashi, e no dia de aparecimento do Senhor."

 

O jejum de Ekadashi não se destina apenas aos brahmacharis e sannyasis, ou apenas para viúvas, como algumas pessoas de mente estreita disseram. Estes sagrados dias de jejum auxiliam grandemente qualquer alma sincera a obter liberação do nascimento e morte, até mesmo dentro desta vida. Ekadashi dá um verdadeiro gosto da renúncia, assim nos auxiliando a deixar a gratificação sensorial ilusória deste mundo material. Como Srila Prabhupada escreve no Srimad-Bhagavatam 3.27.22, significado), "Renúncia em consciência de Krishna é tão forte que não pode ser desviada por qualquer ilusão atraente. A pessoa tem que realizar serviço devocional em plena tapasya, austeridade. Deve-se jejuar nos dois dias de Ekadashi, que caem no décimo primeiro dia da lua minguante e crescente, e nos dias de aparecimento do Senhor Krishna, Senhor Rama, e Chaitanya Mahaprabhu."

Existem dois grupos de seres humanos neste mundo. Um consiste dos espiritualmente conscientes, que vivem pelas escrituras védicas, e o outro consiste das pessoas ignorantes, materialistas, que não o fazem. Porém o Senhor Krishna aceita todas almas como Seus filhos. Sendo todo-misericordioso, portanto, Ele estabeleceu neste mundo processos purificatórios tais como Ekadashi para que todos possam ser elevados espiritualmente. As almas rendidas, os devotos de Krishna, observam este jejum para conseguir as bençãos de Krishna, ficarem livres das garras de Maya, e voltarem para Deus a fim de servir Krishna eternamente. Os ignorantes, por outro lado, poderão tirar vantagem desta ocasião auspiciosa para obter benefícios materiais, que também são concedidos pelo Senhor Krishna. Mas até mesmo materialistas podem eventualmente obter liberação por continuamente observarem o jejum de Ekadashi. Tal é a grande potência do Ekadashi.

 

Para conseguir o pleno benefício de um jejum de Ekadashi, contudo, o obervador deve seguir as regras e regulações descritas neste livros. Se as regras forem devidamente seguidas, e se observarmos Ekadashi em plena consciência de Krishna, esta observância eleva a alma caída a sua posição constitucional origina como serva amorosa do Senhor. Portanto Ekadashi se chama "a melhor de todas ocasiões". Todos são convidados a provarem o maravilhoso fruto de um jejum de Ekadashi.

 

No dia do jejum devemos se possível evitar trabalho físico estafante, e realizar apenas atividades de serviço devocional ao Senhor Krishna. Uma carta de Srila Prabhupada para Jadurani-devi dasi datada de 9 de julho de 1971 confirma esta declaração: "Porque apenas vinte e cinco voltas?" escreve ele, "Deves cantar tantas voltas quanto possível. Verdadeiro Ekadashi significa jejuar e cantar e mais nenhum outro afazer. Quando se observa jejum, o cantar se torna mais fácil. Assim no Ekadashi outros assuntos devem ser suspensos ao máximo possível, a não ser que haja algo urgente."

 

A importância do Ekadashi é explicada no Chaitanya-caritamrta (Adi-lila 15.9-10), numa conversa entre Senhor Chaitanya e Sua mãe, Saci-devi: "Certo dia Sri Chaitanya Mahaprabhu caiu aos pés de Sua mãe e pediu a ela que Lhe desse uma coisa em caridade. Sua mãe respondeu: "Meu querido filho, darei o que pedires." Então o Senhor disse: "Minha querida mãe, por favor não coma grãos no dia de Ekadashi." Em seu significado Srila Prabhupada escreve: "Desde o princípio de Sua infância, Sri Chaitanya Mahaprabhu introduziu o sistema de observar um jejum no dia de Ekadashi. No Bhakti-sandarbha de Srila Jiva Goswami, há uma citação do Skanda Purana admoestando a pessoa que come grãos no Ekadashi a se tornar assassina de sua mãe, pai, irmão, e mestre espiritual, e mesmo se for elevada a um planeta Vaikuntha, irá cair. No Ekadashi, tudo é cozido para Vishnu, inclusive os costumeiros grãos e dal, porém é ordenado que um Vaisnava não deve nem tomar vishnu-prasadam no Ekadashi. É dito que um Vaisnava não aceita nada comestível que não seja oferecido ao Senhor Vishnu, mas no Ekadashi um Vaisnava não deve nem mesmo tocar maha-prasadam oferecida a Vishnu, embora tal prasadam possa ser guardada para ser comida no dia seguinte. É estritamente proibido aceitarmos qualquer tipo de grão no Ekadashi, mesmo se for oferecido ao Senhor Vishnu."

 

Tanto a medicina ocidental como a ayurvédica recomendam jejuar para manter e melhorar a saúde. Na verdade, biólogos modernos e antigos sábios concordam que jejuar nos melhora fisicamente e mentalmente. Portanto naturalmente se entende que o jejum de Ekadashi previne e cura muitas doenças. Srila Prabhupada declara no Srimad-Bhagavatam 1.17.38 significado: "O estado que deseja erradicar a corrupção pela maioria poderá introduzir os princípios da religião da seguinte maneira: 1. Dois dias de jejum compulsório num mês, se não for mais (austeridade). Mesmo do ponto de vista econômico, esses dois dias de jejum num mês economizarão para o estado toneladas de alimento, e o sistema também atuará favoravelmente na saúde geral dos cidadãos."

 

Neste livro o leitor descobrirará que algumas pessoas que observam Ekadashi chegam aos planetas celestiais. Esta meta não deve ser entendida erroneamente como o propósito final de jejuar no Ekadashi. Muitas figuras mencionadas neste livro observam o jejum de Ekadashi por acaso; elas não seguem regras e estão imersas na ignorância. Não sabem que estão observando Ekadashi, e seus coraçöes estão cheios de desejos materiais. Ainda assim, ambos tipos de pessoas e aqueles que observam corretamente Ekadashi com fins materiais alcançam suas metas. Mas o devoto consciente de Krishna que deseja devoção imotivada, pura e sem misturas por Deus, e que observa Ekadashi nesse espírito, é promovido naturalmente a Goloka Vrndavana, a morada suprema do Senhor Krishna. De fato, o jejum de Ekadashi auxilia grandemente no progresso de volta para Deus.

 

Como Observar Ekadashi

 

Jejuar em geral significa abster-se tanto de alimento como de bebida, embora água de acamana e caranamrta (apenas três gotas) possa ser bebida. Achando isso impossível, pode-se comer uma só refeição única sem grãos de tarde. Esta refeição - chamada nakta ou ceia - deve consistir de raízes que crescem sob a terra (exceto beterraba), frutas, água, laticínios, nozes, açúcar, e vegetais (exceto cogumelos). Deve-se tentar não beber água mais que uma vez ou comer mais que uma refeição no Ekadashi. Como o Senhor Krishna diz para Arjuna no Capítulo Um deste livro, a quantidade total do mérito é concecida àquela pessoa que jejua completamente no Ekadashi, enquanto quem come apenas jantar obtém a metade desse mérito. É claro, para cada devoto no movimento de consciência de Krishna, pregar é o dever mais importante, e se um jejum completo de Ekadashi impede esse dever, não deve ser observado. Mas se um devoto consegue seguir as regras plenas de jejum e ainda cumprir com suas responsabilidaes, deve de qualquer maneira fazê-lo.

 

Em todo caso, devemos evitar estritamente comer grãos ou legumes no Ekadashi. Devemos também evitar dormir durante o dia; uma massagem com óleo; comer nozes betel; tocar numa mulher menstruada, num candala, num bêbado, ou lavadeira; evitar o barbear e comer com utensílios de metal de sino. Caso a pessoa coma, além de grãos e legumes deverá evitar o seguinte: espinafre, mel, berinjela, comer na casa de outrem, assafétida, e sal marinho. (Outros tipos de sal, tal como o salgema, são permitidos). Só quem estiver doente poderá consumir remédios de ervas neste dia sagrado.

 

Embora atualmente o calendário védico comece com o mês Caitra (mar/apr), na antiguidade o ano novo começava com o mês de Margashirsha, ou nov/dec. Este é um mês muito auspicioso. Como o Senhor Sri Krishna declara no Bhagavad-gita 10.35, masanam marga-shirsho 'ham: "Dos meses sou Margashirsha." Portanto quem está começando a observância de jejuns de Ekadashi usualmente começa durante este mês. Há dois Ekadashis em cada mês, um durante a quinzena escura e um durante a clara. São igualmente poderosos para avanço espiritual.

 

Para começar o jejum, o devoto deve primeiro determinar ficar firme em seu voto. Então deve procurar um devoto erudito, duas-vezes nascido do Senhor Supremo e aprender diretamente dele sobre o sagrado processo de observar um jejum de Ekadashi. Quem é totalmente incapaz de jejuar devido a doença séria ou velhice deve procurar uma alma altamente avançada e dar alguma caridade no Ekadashi. Para Vaisnavas, contudo, a injunção de dar caridade no Ekadashi significa que nesse dia devem fazer um esforço extra para divulgar consciência de Krishna, o maior tesouro. Isso é verdadeira caridade. Outra prática importante é ouvir e ler sobre cada Ekadashi conforme ocorre. O próprio Senhor Sri Krishna recomenda muito esta prática, pois nos auxilia a conseguir o resultado de jejuar.

 

Se por acaso a pessoa esquece de observar Ekadashi no dia apropriado, poderá observá-lo no dia seguinte, Dvadashi, e depois quebrar seu jejum no Trayodashi, o dia que se segue. Conforme dito nas escrituras védicas:

 

ekadashi vipluta ced

dvadashi paratah sthita

upasya dvadashim tatra

yadicched paramam padam

 

"Se uma pessoa que deseja sinceramente alcançar a morada da Suprema Personalidade de Deus esquece de observar Ekadashi, deve observá-lo no Dvadashi, porque Ekadashi se prolonga ao dia seguinte."

 

Durante o Ekadashi da quinzena luminosa, se deve meditar nos doze santos nomes do Senhor Vishnu cantando o mantra: om keshavaya namah e os outros mantras que devotos do Senhor recitam sistematicamente quando aplicam tilaka, argila sagrada, em seus corpos. Durante o Ekadashi da quinzena obscura, o devoto deve meditar nos dezesseis santos nomes das expansöes quádruplas do Senhor Supremo e suas porçöes plenárias subsequentes. O devoto deve cantar: om sankarshanaya namah, om govindaya namah, etc. (Por favor refiram-se ao Chaitanya-caritamrta, Madhya-lila 20.195-97).

 

Durante cada Ekadashi devemos constantemente meditar na Suprema Personalidade de Deus, o Senhor Sri Krishna, dando importância a Suas expansöes plenárias. Também se pode meditar nos aparecimentos autorizados do Senhor em Sua forma da Deidade, que existe em oito variedades. No Srimad-Bhagavatam 11.27.12 o Senhor Krishna diz para Uddhava:

 

shaili daru-mayi lauhi

lepya lekhya ca saikati

mano-mayi mani-mayi

pratimashta-vidha smrta

 

"A forma da Deidade do Senhor é dito que aparece em oito variedades - pedra, madeira, metal, terra, tinta, a mente, ou jóias."

 

Se o Ekadashi combinar-se astronomicamente com Dashami, o décimo dia da quinzena, n m, todo acharya recomenda que todos membros das quatro ordens sociais e espirituais observem fiel e estritamente Ekadashi para alcançar a morada suprema de Sri Krishna. Contudo, existe esta instrução sobre mulheres casadas:

 

patvo jivati ya nari

upasya vrtam acaret

ayusham harate bhartur

narakam caiva gacchati

 

"Uma mulher cujo marido esteja vivo deve pedir a permissão dele para observar jejuns. Se deixar de fazê-lo, ela reduz a duração de vida dele e o manda para o inferno." Uma mulher casada portanto deve obter a permissão de seu marido antes de jejuar no Ekadashi.

 

Na manhã de Ekadashi, o devoto deve chegar diante da Deidade da Suprema Personalidade de Deus - o Senhor Sri Krishna ou Senhor Rama - e cantar as oraçöes Purusha-shukta, começando pelo verso cujas primeiras palavras são sahasra-shirsha purushah. O devoto em seguida deve oferecer suas humildes reverências ao Senhor e meditar em Seus pés de lótus enquanto canta om damodaraya namah, em Suas coxas enquanto canta om madhavaya namah, em Suas partes privadas enquanto canta om kamapataye namah, em Seus quadris enquanto canta om vamanaya namah, em Seu umbigo enquanto canta om vishvamurtaye namah, em Seu coração enquanto canta om jnanagamyaya namah, em Sua garganta enquanto canta om shrikanthaya namah, em Seus braços enquanto canta om sahasrabahave namah, em Seus olhos de lótus enquanto canta om paramayogine namah, em Sua testa enquanto canta om urugayai namah, em Seu nariz enquanto canta om narakeshvaraya namah, em Seu cabelo enquanto canta om sarvakamadaya namah, e em Sua cabeça enquanto canta om sahasrashirshaya namah.

 

Desta maneira o devoto sincero deve meditar na esplêndida forma espiritual da Suprema Personalidade de Deus, o Senhor Sri Krishna, e oferecer suas humildes reverências a Ele. O devoto deve cantar Seus gloriosos nomes - Hare Krishna, Hare Krishna, Krishna Krishna, Hare Hare / Hare Rama, Hare Rama, Rama Rama, Hare Hare - enquanto toca vários instrumentos musicais, e deve também cantar silenciosamente nas contas com total reverência e afeição. Se possível, o devoto deve permanecer acordado toda noite, glorificando o Senhor desta maneira.

 

Um devoto que segue as ordens de seu mestre espiritual e observar Ekadashi desta maneira - jejuando completamente e glorificando o Senhor dia e noite adentro num humor de devoção amorosa - certamente irá se tornar plenamente absorto em pura consciência de Krishna.

 

No Dvadashi, o devoto deve primeiro limpar seu corpo tomando banho e seu coração cantando o maha-mantra. Então ele deve cozinhar alimento suntuoso para o prazer do Senhor e oferecer a Ele com grande devoção e oraçöes sinceras. Após distribuir alimento aos outros devotos e aos brahmanas, ele pode quebrar seu jejum e desfrutar do banquete.

 

 

Sobre Este Livro

 

 

Este livro destina-se a complementar os livros de Srila Prabhupada. Consiste da tradução de seleçöes de vários Puranas, que foram escritos por Srila Vyasadeva, a encarnação literária de Deus. Srila Suta Goswami está falando para oitenta e oito mil sábios reunidos na floresta de Naimisharanya. Shaunaka, o principal dentre todos sábios, indaga de Suta Goswami sobre como se pode ficar livre de todas reaçöes pecaminosas. A não ser que se esteja livre de todos pecados, não se pode realizar serviço devocional puro. Como diz o Senhor Krishna no Bhagavad-gita 7.28: yesham tv anta-gatam papam jananam punya-karmanam... bhajante mam drdha-vratah. "Pessoas que agiram piedosamente nesta e em vidas pretéritas, e cujas açöes pecaminosas estão completamente erradicadas, ocupam-se em Meu serviço com determinação."

 

Para responder Shaunaka, Suta Goswami narra vários relatos históricos contendo conversas mantidas na antiguidade. Alguns podem pensar que a regras estritas para observar Ekadashi dadas nestas narrativas são da seção karma-kanda das escrituras, porém todas estas regras destinam-se a ajudar o devoto aspirante a obter purificação suprema. A não ser que estas fossem as histórias mais puras, o Senhor Krishna, Arjuna, Yudhishthira, o Senhor Brahma, Narada Muni, Suta Goswami, e Shaunaka Rishi não desperdiçariam seu tempo valioso apresentando os fatos exaustivamente. Além do mais, Sri Dvaipayana Vyasa, a encarnação literária do Senhor, não escreveria estes fatos nos Puranas que se destinam àqueles no modo da bondade. Portanto uma pessoa que tem inclinação espiritual deve aceitar estas injunçöes de todo coração. Elas destinam-se à nossa elevação.

 

Todo o processo de consciência de Krishna, conforme ensinado por Sri Chaitanya Mahaprabhu, é baseado no vairagya-vidya,"renúncia e conhecimento." A observância estrita do jejum de Ekadashi é um ato de renúncia autorizado, provado, que acentua a pureza e amor por Krishna do devoto. Como Srila Prabhupada escreve no Néctar da Devoção p. 63: "No Brahma-vaivarta Purana é dito que quem observa jejum no dia de Ekadashi se liberta de todos tipos de reaçöes a atividades pecaminosas e avança na vida piedosa. O princípio básico não é só jejuar, mas incrementar nossa fé e amor por Govinda, ou Krishna. A verdadeira razão para observar jejum no Ekadashi é minimizar as demandas do corpo e ocupar nosso tempo no serviço do Senhor cantando ou realizando serviço similar. A melhor coisa a fazer nos dias de jejum é lembrar dos passatempos de Govinda e ouvir Seu santo nome constantemente."

 

Assim se deve observar o jejum de Ekadashi com grande devoção por Krishna, não com motivos materiais. Como diz Narada Muni para Vyasadeva no Primeiro Canto do Srimad-Bhagavatam, devemos tentar obter aquela coisa que não obtivemos por vagar através dos sistemas superiores e inferiores deste universo, por incontáveis nascimentos nas muitas espécies de vida. Esta meta é pura consciência de Krishna, que nos levará de volta para a morada do Senhor Krishna no céu espiritual.

 

Por isso encorajamos todos a aproveitar da grande benção da forma de vida humana civilizada, adotando a prática do serviço devocional a Krishna, obtendo liberação do nascimento, velhice, doença, e morte, e retornando ao lar, de volta para Deus. A devida observância de Sri Ekadashi aumenta grandemente este serviço devocional puro. Assim, todos são convidados a tomarem parte no festival de jejuar no Ekadashi.

 

Finalmente, gostaria de oferecer meus sinceros agradecimentos e mais humildes reverências aos pés de lótus de meu amado mestre espiritual, Sua Divina Graça A.C. Bhaktivedanta Swami Prabhupada, que misericordiosamente abriu meus olhos espirituais enquanto eu estava na escuridão da ignorância. A não ser que ele tivesse me pegado, não poderia jamais ter aprendido sobre a ciência de consciência de Krishna e o mundo espiritual eterno. Também ofereço meus sinceros agradecimentos a Srila Bhaktisvarupa Damodara Swami, o diretor internacional do Bhaktivedanta Institute, que publicou este livro, por cuja misericórdia ainda existo como devoto. São eles que me inspiram a produzir este livro a fim de que sinceros devotos do Senhor Krishna possam ter algum conhecimento sobre o jejum de Ekadashi e estudar melhor os livros de Srila Prabhupada.

 

Também desejo oferecer meus sinceros agradecimentos a Sriman Nick Epsilantis por sua generosa doação, bem como a todos os devotos em seguida relacionados, que trabalharam arduamente para editar este livro e/ou forneceram apoio financeiro essencial: Sua Santidade Mahanidhi Swami, Sua Santidade Lokasharanya Swami, Sriman Riktananda dasa, Sriman Dravida dasa, Sriman Rohinipriya dasa, Sriman Agnideva dasa e família, Sriman Bhayahari dasa e família, Sriman Bhaktisiddhanta dasa, Sriman Grahila dasa, Sriman Banabhatta dasa, Sriman Kalpataru dasa, Sriman Kalachandra dasa, Sriman Bopadeva dasa, Sriman Rudradeva dasa, Sriman Gadagraja dasa, Sriman Manohara dasa, Sriman Aniruddha dasa e família, Srimati Yashodamayi-devi dasi, e Sriman Sarvasatya dasa.


INVOCAÇÃO

 

Suta Goswami disse: "Existem doze meses num ano, e dois Ekadashis em cada mês. Portanto há vinte e quatro Ekadashis num ano completo, e num ano bi-sexto temos dois Ekadashis a mais. ó grandes sábios, por favor ouçam atentamente enquanto declaro para vós os nomes destes auspiciosos Ekadashis. São Utpanna, Mokshada, Saphala, Putrada, Sat-tila, Jaya, Vijaya, Amalaki, Papamocani, Kamada, Varuthini, Mohini, Apara, Nirjala, Yogini, Padma (Devashayani), Kamika, Putrada, Aja, Parivartini, Indira, Papankusha, Rama e Haribodhini (Devotthani). Os dois Ekadashis extras, que ocorrem durante o ano bi-sexto, se chamam Padmini e Parama.

 

ó sábios, quem ouve sobre estes Ekadashis irá saber como observá-los corretamente. Cada Ekadashi concede determinadas bençãos ao fiel observador.

 

Quem está fisicamente incapacitado de jejuar no Ekadashi poderá ler as glórias de cada Ekadashi quando ocorrer e recitar todos os nomes dos Ekadashis; assim conseguirá a mesma meta que a pessoa que observa o voto completo de Ekadashi."


 

EKADASI

 

"Há cinco barcos para as pessoas que estão se afogando no oceano da existência material: o Senhor Vishnu, o Bhagavad-gita, Srimati Tulasi-devi, a vaca, e Ekadasi. (Senhor Krishna falando a Garuda, no Garuda Purana)

 

Quem faz o jejum de Ekadasi não só se beneficia tremendamente a nível do corpo físico, mas também espiritualmente. Concede muito avanço espiritual. Auxilia qualquer alma sincera a obter liberação do nascimento e da morte, mesmo durante esta vida.

 

"Se uma pessoa jejua no Ekadasi, Eu acabo com todos seus pecados e concedo-lhe Minha morada transcendental... De fato, Ekadasi é o dia mais cheio de mérito para se destruir todo tipo de pecados, e surgiu a fim de beneficiar todos." (Senhor Krishna p/Arjuna no Capítulo 1 ).

 

Nota da tradutora: Muitas pessoas seguem Ekadasi (o jejum de grãos sempre 11 dias após a lua minguante ou lua crescente) mas não sabem exatamente sua história. Aqui vai um resumo do 14º capítulo do Padma Purana sobre o aparecimento de Sri Ekadasi:

 

Na verdade a divindade Sri Ekadasi é uma forma de Vishnu. Ele apareceu nos primórdios da criação material com o intento de liberar as entidades que estavam sofrendo nos planetas infernais. Seguindo o voto de Ekadasi, todas estas entidades alcançaram os planetas espirituais. Porém a personalidade que encarna todas as atividades pecaminosas, o "Papa-Purusha", ficou à mingua, prestes a perecer. Conhecendo a natureza de absoluta benesse do Senhor Vishnu, Papa-Purusha rogou refúgio e vida. Assim, Vishnu concedeu-lhe abrigo nos grãos alimentícios, mas somente nos dias acima-mencionados, e dessa maneira o universo material pode manter seu andamento normal.

 

"Quando se jejua, os ares vitais (doshas) desequilibrados se re-equilibram, e nosso corpo e mente se normalizam. Além disso, obtemos leveza física, um apetite e sede saudável, disposição agradável, boa digestão, bem como força, energia e vigor." (Ayurveda: Astangahrdayam 1.3)

 

"Estes são os benefícios do jejum: purificação dos órgãos sensoriais e motores, eliminação adequada dos dejetos, leveza do corpo, apetite saudável, aparecimento de fome e sede nos devidos horários, pureza da região pericardial, elimina problemas de gases e garganta, relaxa tensão corporal aguda, confere bom humor e liberta da indolência." (Ayurveda: Sutrasthanam 14.17)

 

"Jejuo para controlar minha mente e alma. Isto me dá força e determinação para alcançar minha meta. (Mahatma Ghandi)

 

 


1 UTPANNA EKADASHI

 

Suta Goswami disse: brahmanas sábios, há muito tempo atrás o Senhor Sri Krishna, a Suprema Personalidade de Deus, explicou as glórias auspiciosas de Sri Ekadashi e as regras e regulaçöes governando cada jejum obervado naquele dia santo. ó melhor dos brahmanas, quem quer que ouça sobre as origens e glórias destes jejuns sagrados nos dias de Ekadashi vai direto para a morada do Senhor Vishnu após desfrutar de muitos diferentes tipos de felicidade neste mundo material.

 

Arjuna, o filho de Prtha, perguntou ao Senhor: "ó Janardana, quais são os benefícios piedosos do jejum completo, de apenas jantar, ou comer somente ao meio-dia no Ekadashi, e quais são as regulaçöes para observar os vários dias de Ekadashi? Tenha a bondade de narrar-me tudo isso."

 

O Senhor Supremo, Sri Krishna, respondeu: "ó Arjuna, no início do inverno, no Ekadashi que ocorre durante a quinzena obscura do mês de Margashirsha (Nov/Dec), um noviço deve começar sua prática de observar jejum no Ekadashi. No Dashami, dia antes de Ekadashi, deve limpar bem seus dentes. Depois, durante a oitava porção de Dashami, assim que o sol esteja para se por, deve comer jantar.

 

Na manhã seguinte o devoto deve fazer um voto, segundo as regras e regulaçöes, de observar jejum. Ao meio-dia deve-se banhar devidamente num rio, lago, ou pequena lagoa. Um banho num rio é o mais purificante, num lago algo menos, e numa pequena lagoa é o menos purificante. Se nem um rio, lago ou lagoa forem acessíveis, então poderá banhar-se com água de poço.

 

O devoto deve cantar sua oração contendo os nomes da Mãe Terra: "Oh Ashvakrante! ó Rathakrante! ó Vishnukrante! ó Vasundhare! ó Mrttike! ó Mãe Terra! Bondosamente remova todos os pecados que acumulei por minhas muitas vidas pretéritas de modo que eu possa entrar na morada sagrada do Senhor Supremo." Enquanto o devoto canta, ele deve passar barro em todo seu corpo.

 

Durante o dia de jejum o devoto não deve falar com aqueles que caíram de seus deveres religiosos, comedores de cães, ladröes, ou hipócritas. Também deve evitar falar com caluniadores, com aqueles que insultam os semideuses, as literaturas védicas, ou brahmanas, ou com quaisquer outras personalidades más, tais como os que tem sexo com mulheres proibidas (1), saqueadores, ou ladröes de templo. Caso falemos ou até mesmo só vejamos uma tal pessoa durante o Ekadashi, devemos nos purificar olhando diretamente para o sol.

 

Depois o devoto deve adorar respeitosamente o Senhor Govinda com alimento, flores e tudo o mais de primeira classe. Em seu lar ele deve oferecer ao Senhor uma lamparina em consciência devocional pura. Deve também evitar dormir durante o dia e deve abster-se completamente de sexo. Jejuando de todo alimento e água, deve alegremente cantar as glórias do Senhor e tocar instrumentos musicais para Seu prazer noite afora. Após permanecer acordado toda noite em consciência pura, o adorardor deve dar caridade a brahmanas qualificados e oferecer suas humildes reverências a eles, implorando pelo perdão deles para suas ofensas.

 

Aqueles que são sérios quanto ao serviço devocional devem considerar os Ekadashis que ocorrem durante a quinzena obscura como sendo tão bons quantos os que ocorrem durante as luminosas. ó rei, nunca devemos discriminar entre esses dois tipos de Ekadashi.

 

Por favor ouça enquanto agora descrevo os resultados obtidos por alguém que observa Ekadashi desta maneira. Nem o mérito que se recebe por tomar banho num local sagrado de peregrinação conhecido como Shankhoddhara, onde o Senhor matou o demônio Shankhasura, nem o mérito que recebemos por ver o Senhor Gadadhara diretamente, é igual a um décimo-sexto do mérito obtido por jejuar no Ekadashi. É dito que por doar caridade numa segunda-feira de lua-cheia, se obtém cem mil vezes os resultados da caridade comum. ó ganhador de riqueza, quem dá caridade no dia de sankranti (equinócio) obtém quatrocentas mil vezes o resultado comum. No entanto, simplesmente por jejuar no Ekadashi se obtém todos esses resultados piedosos, bem como quaisquer resultados piedosos que se consiga em Kurukshetra durante um eclipse do sol ou lua. Além do mais, a alma fíel que observar jejum completo no Ekadashi consegue cem vezes mais mérito que uma que realize um Ashvamedha-yajna (sacrifício de cavalo). Quem observa apenas um só jejum de Ekadashi perfeitamente ganha o mesmo mérito que quem alimenta cem mil mendigos todo dia durante sessenta mil anos. E uma pessoa que observa corretamente Ekadashi apenas uma vez ganha mais mérito que uma pessoa que dá mil vacas em caridade a um brahmana erudito nos Vedas.

 

Uma pessoa que alimenta apenas um brahmachari ganha dez vezes mais mérito que alguém que alimenta dez bons brahmanas em sua própria casa. Porém mil vezes mais mérito que o recebido por alimentar um brahmachari é obtido por doar terra a um brahmana respeitável e necessitado, e mil vezes mais que isso é obtido por dar uma moça virgem em casamento a um homem jovem, bem-educado, responsável. Dez vezes mais benéfico que isto é educar crianças devidamente na senda espiritual, sem esperar qualquer recompensa em troca. Dez vezes melhor que isso, no entanto, é dar grãos alimentícios aos esfomeados. De fato, dar caridade aos necessitados é o melhor, e nunca houve ou haverá caridade melhor que esta. (2) ó filho de Kunti, todos antepassados e semideuses no céu ficam muito satisfeitos quando se dá grãos alimentícios em caridade. Mas o mérito que se obtém por obervar um jejum completo no Ekadashi é imensurável. ó Arjuna, melhor de todos Kurus, o efeito poderoso deste mérito é inconcebível mesmo para os semideuses, e a metade deste mérito é obtido por quem come apenas o jantar no Ekadashi.

 

Portanto deve-se observar jejum no dia do Senhor Hari, seja comendo apenas uma vez ao meio-dia, abstendo-se de grãos e feijöes; ou comer apenas uma vez à noitinha, abstendo-se de grãos e feijöes; ou jejuar completamente. Os processos de permanecer em locais de peregrinação, dar caridade, e realizar sacrifícios de fogo só podem se gabar enquanto não aparece Ekadashi. Portanto qualquer pessoa temerosa das misérias da existência material deve observar Ekadashi. No Ekadashi não se deve beber água de uma concha, matar entidades vivas como peixes ou porcos, ou comer quaisquer grãos ou feijöes. Assim te descrevi, ó Arjuna, o melhor de todos métodos de jejum, conforme indagaste a Mim."

 

Arjuna então perguntou: "ó Senhor, segundo falaste, mil sacrifícios védicos não equivalem a um só jejum de Ekadashi. Como pode ser isso? Como é que Ekadashi se tornou o mais meritório dos dias?"

 

O Senhor Krishna respondeu: "Vou te contar porque Ekadashi é o mais purificante de todos dias. Na Satya-yuga certa vez vivia um demônio espantosamente aterrorizante chamado Mura. Sempre muito irado, ele aterrorizava todos semideuses, derrotando até Indra, o rei do céu; Vivasvan, o deus do sol; os oito Vasus (3); o Senhor Brahma; Vayu, o deus do vento; e Agni, o deus do fogo. Com seu terrível poder colocou todos sob seu controle.

 

O Senhor Indra então aproximou-se do Senhor Shiva e disse: "Todos nós caímos de nossos planetas e agora estamos vagando desprotegidos na terra. ó Senhor, como poderemos encontrar alívio desta aflição? Qual será o destino de nós semideuses?"

 

O Senhor Shiva replicou: "ó melhor dos semideuses, vá para aquele lugar onde o Senhor Vishnu, que cavalga Garuda, reside. Ele é Jagannatha, o soberano de todos universos e refúgio deles também. Ele está devotado a proteger todas almas que se renderam a Ele."

 

O Senhor Krishna continuou: "ó Arjuna, ganhador da riqueza, depois que o Senhor Indra ouviu estas palavras do Senhor Shiva, foi com todos semideuses para o local onde o Senhor Jagannatha, o Senhor do universo, protetor de todas almas, estava descansando. Vendo o Senhor dormindo sobre a água, os semideuses juntaram suas palmas e, liderados por Indra, recitaram as seguintes oraçöes:

 

"ó Suprema Personalidade de Deus, todas reverências a Ti. ó Senhor dos Senhores, ó Tu que és louvado pelos maiores semideuses, ó inimigo de todos demônios, ó Senhor de olhos de lótus, ó Madhusudana (matador do demônio Madhu), por favor proteja-nos. Com medo do demônio Mura, nós semideuses viemos tomar refúgio em Ti. ó Jagannatha, és quem fazes tudo e criador de tudo. És o pai e a mãe de todos universos. És o criador, o mantenedor, e destruidor de tudo. És o supremo auxiliar de todos semideuses, e só Tu podes trazer a paz a eles. Só Tu és a terra, o céu, e o benfeitor universal.

 

És Shiva, Brahma e também Vishnu, o mantenedor dos três mundos. És os deuses do sol, lua, e fogo. És a manteiga clarificada, a oblação, o fogo sacrificial, os mantras, os rituais, os sacerdotes, e o silencioso cantar de japa. És o próprio sacrifício, seu patrocinador, e o desfrutador de seus resultados, a Suprema Personalidade de Deus. Nada dentro destes três mundos, seja móvel ou imóvel, pode existir independente de Ti. ó Senhor Supremo, Senhor dos senhores, és o protetor daqueles que se abrigam em Ti. ó místico supremo, ó refúgio dos temerosos, por favor salva e proteja-nos. Nós semideuses fomos derrotados pelos demônios e assim caímos do reino celestial. Privados de nossas posiçöes, ó Senhor do universo, estamos agora vagando sobre este planeta terreno."

 

O Senhor Krishna continuou: "Tendo ouvido Indra e os outros semideuses falarem estas palavras, Sri Vishnu, a Suprema Personalidade de Deus, respondeu: "Qual demônio possui tais poderes tão grandes de ilusão que conseguiu derrotar todos os semideuses? Qual é o nome dele, e onde mora? De onde consegue sua força e respaldo? Conte-Me tudo, ó Indra, e não tema."

 

O Senhor Indra respondeu: "ó Supremo Deus, ó Senhor dos senhores, ó Tu que conquistaste o temor nos coraçöes de Teus devotos puros, ó Tu que és tão bondoso para com Teus servos fiéis, certa vez havia um poderoso demônio da dinastia Brahman cujo nome era Nadijangha. Era extraordinariamente atemorizante e completamente dedicado a destruir os semideuses, e teve um filho infame chamado Mura.

 

A grande capital de Mura é Chandravati. Desta base o terrivelmente mau e poderoso demônio Mura conquistou o mundo inteiro e colocou todos semideuses sob seu controle, expulsando-os de seu reino celestial. Ele assumiu o papel de Indra, rei dos céus; de Agni, deus do sol; de Yama, senhor da morte; de Vayu, deus do vento; de Isha, ou Senhor Shiva; de Soma, o deus da lua; Nairtti, deus das direçöes, e Pashi, ou Varuna, deus da água. Também começou a emanar luz no papel de deus do sol e se transformou nas nuvens também. É impossível para os semideuses derrotá-lo. ó Senhor Vishnu, por favor mate este demônio e torne os semideuses vitoriosos."

 

Ouvindo estas palavras de Indra, o Senhor Janardana ficou muito zangado e disse: "ó poderosos semideuses, todos juntos podeis agora avançar sobre a capital de Mura, Chandravati." Assim encorajados, os semideuses reunidos proseguiram até Chandravati com o Senhor Hari liderando o caminho.

 

Quando Mura viu os semideuses, este maior dos demônios começou a rugir alto na companhia de incontáveis milhares de outros demônios, que estavam segurando armas que reluziam brilhantemente. Os demônios poderosamente armados atacaram os semideuses, que começaram a abandonar o campo de batalha e fugir nas dez direçöes. Vendo o Supremo Senhor Hrshikesha, o senhor de todos sentidos, presente no campo de batalha, os furiosos demônios correram para Ele com várias armas em suas mãos. Enquanto se arremetiam contra o Senhor, que porta uma espada, disco e maça, Ele imediatamente perfurava todos seus membros com Suas flechas pontiagudas, venenosas. Assim muitas centenas de demônios morreram pela mão do Senhor.

 

Afinal o chefe dos demônios, Mura, começou a lutar com o Senhor. Mura usou seu poder místico para tornar inúteis quaisquer armas que o Senhor Supremo Hrshikesha soltasse. De fato, para o demônio as armas pareciam flores atingindo-o. Quando o senhor não conseguiu derrotar o demônio nem mesmo com vários tipos de armas - sejam lançadas ou empunhadas - Ele começou a lutar com Suas mãos desprotegidas, que eram fortes como maças cravejadas de pontas de ferro. O Senhor lutou com Mura durante mil anos celestiais e então, aparentemente fatigado, foi-se para Badarikashrama. Ali o Senhor Yogeshvara, o maior de todos yoguis, o Senhor do universo, entrou numa caverna muito bela chamada Himavati para descansar. ó Dhananjaya, ganhador da riqueza, esta caverna tinha noventa e seis milhas de diâmetro e só tinha uma entrada. Fui para lá devido ao temor e também para dormir. (4) Não há dúvida quanto a isso, ó filho de Pandu, pois a grande luta Me cansou muito. O demônio seguiu-Me até essa caverna e, vendo-Me dormindo, começou a pensar em seu coração: "Hoje vou matar esse assassino de todos demônios, Hari."

 

Enquanto o malvado Mura estava fazendo planos desta maneira, de Meu corpo se manifestou uma jovem moça que tinha uma pele muito luminosa. ó filho de Pandu, Mura viu que ela estava equipada com varias armas brilhantes e pronta para lutar. Desafiado por essa mulher a lutar, Mura preparou-se e então lutou com ela, porém ficou muito espantado quando viu que ela lutava sem cessar. O rei dos demônios então disse: "Quem criou esta moça irada, temível, que está lutando comigo tão poderosamente, assim como um raio caindo sobre mim?" Após dizer isto, o demônio continuou a lutar com a moça.

 

De repente aquela refulgente deusa destroçou todas armas de Mura e num momento privou-o de sua quadriga. Ele correu para ela a fim de atacá-la com suas mãos desprotegidas, mas quando ela o viu chegando, enfurecida cortou-lhe a cabeça. Assim o demônio imediatamente caiu ao solo e foi para a morada de Yamaraja. O resto dos inimigos do Senhor, por medo e desamparo, entraram na região subterrânea Patala.

 

Então o Senhor Supremo acordou e viu o corpo morto do demônio diante de Si, bem como a donzela curvando-se diante Dele com as mãos postas. Seu rosto expressando espanto, o Senhor do universo disse: "Quem matou este demônio depravado? Ele facilmente derrotou todos semideuses, Gandharvas, e até mesmo o próprio Indra, junto com os companheiros de Indra, os Maruts, e também derrotou os Nagas (serpentes), governantes dos planetas inferiores. Ele até derrotou a Mim, fazendo com que Me escondesse nesta caverna por medo. Quem é que tão misericordiosamente protegeu-Me depois que corri do campo de batalha e vim dormir nesta caverna?"

 

A donzela disse: "Fui eu que matei este demônio após aparecer de Teu corpo transcendental. De fato, ó Senhor Hari, quando Te viu dormindo e que és tu quem mataste este rei dos demônios. Desta maneira tornaste os semideuses felizes, prósperos e cheios de bem-aventurança. Porque deste prazer a todos semideuses em todos três mundos, estou muito satisfeito contigo. Peça qualquer benção que desejar, ó ser auspicioso. Concederei-a sem dúvida, embora possa ser muito rara entre os semideuses."

 

A donzela disse: "ó Senhor, se estás satisfeito comigo e desejas dar-me uma benção, então confira-me o poder de salvar dos maiores pecados aquelas pessoas que jejuam neste dia. Desejo que a metade do crédito piedoso obtido por alguém que jejua, seja obtido por quem apenas come de noite (abstendo-se de grãos e feijöes), e que metade deste crédito piedoso seja recebido por quem só come ao meio-dia. Também, que a pessoa que observar estritamente um jejum completo no dia de meu aparecimento, com sentidos controlados, vá para a morada do Senhor Vishnu por um bilhão de kalpas (5) depois que tiver desfrutado de todo tipo de prazeres neste mundo. Esta é a benção que desejo obter por Tua misericórdia, meu Senhor. ó Senhor Janardana, quer uma pessoa observe jejum completo, coma apenas o jantar, ou apenas o almoço, por favor conceda-lhe uma atitude religiosa, fortuna, e afinal a liberação."

 

A Suprema Personalidade de Deus disse: "ó mui auspiciosa senhora, o que pediste está concedido. Todos Meus devotos neste mundo certamente jejuarão no teu dia, e assim eles se tornarão famosos pelos três mundos, e finalmente virão e ficarão Comigo em Minha morada. Porque tu, Minha potência transcendental, apareceste neste décimo primeiro dia da lua minguante, que teu nome seja Ekadashi. Se uma pessoa jejua no Ekadashi, queimarei todos seus pecados e conceder-lhe-ei Minha morada transcendental.

 

Estes são os dias da lua crescente e minguante que Me são mais queridos: Trtiya (terceiro dia); Ashtami (oitavo dia); Navami (nono dia); Caturdasi (décimo quarto dia), e especialmente Ekadashi (décimo primeiro dia). (6)

 

O mérito obtido por jejuar no Ekadashi é maior que o obtido por observar qualquer outro tipo de jejum ou por ir a um local de peregrinação, e até mesmo maior que o obtido por dar caridade a brahmanas. Digo-lhe mui enfaticamente que isto é verdade."

 

Tendo assim dado Sua benção à donzela, o Senhor Supremo de repente desapareceu. Desde então o dia de Ekadashi se tornou muito meritório e famoso em todo universo. ó Arjuna, se uma pessoa observa estritamente Ekadashi, eu mato todos seus inimigos e concedo-lhe o destino mais elevado. De fato, se uma pessoa observa este grande jejum Ekadashi em qualquer dos modos prescritos, (7) Eu removo todos obstáculos a seu progresso espiritual e concedo-lhe a perfeição da vida.

 

Assim, ó filho de Prtha, descrevi para ti a origem do Ekadashi. Só este dia remove todos pecados eternamente. De fato, é o dia mais meritório para destruir todos tipos de pecados, e surgiu a fim de beneficiar todos no universo concedendo todas variedades de perfeição.

 

Não se deve discriminar entre os Ekadashis da lua minguante e crescente; ambos devem ser observados, ó Partha, e não devem ser diferenciados do Maha-dvadasi. (8) Todos que jejuam no Ekadashi devem reconhecer que não há diferença entre estes dois Ekadashis, pois consistem no mesmo tithi.

 

Quem jejua completamente no Ekadashi, seguindo as regras e regulaçöes, alcançará a suprema morada do Senhor Vishnu, que cavalga Garuda. São gloriosos aqueles que se devotam ao Senhor Vishnu e passam todo seu tempo estudando as glórias do Ekadashi. Quem faz voto de não comer nada no Ekadashi mas de só comer no dia seguinte, obtém o mesmo merito que alguém que executa um sacrifício de cavalo. Quanto a isso não há dúvida.

 

No Dvadasi, o dia após Ekadashi, deve-se orar: "ó Pundarikaksha, ó Senhor dos olhos de lótus, agora vou comer. Por favor proteja-me." Após dizer isso, o devoto sábio deve oferecer algumas flores e água aos pés de lótus do Senhor e convidar o Senhor para comer cantando o mantra de oito sílabas três vezes (9). Se o devoto quer ganhar os frutos de seu jejum, deve então beber água tirada da vasilha santificada na qual ofereceu água aos pés de lótus do Senhor.

 

No Dvadasi se deve evitar de dormir durante o dia, comer na casa de outrem, comer mais que uma vez, ter sexo, comer mel, comer de um prato feito de metal para sinos, comer urad dhal, e esfregar óleo no corpo. O devoto deve abandonar estas oito coisas no Dvadasi. Se deseja falar com um proscrito neste dia, deve purificar-se comendo uma folha de tulasi ou uma fruta amalaki. ó melhor dos reis, do meio-dia de Ekadashi até a madrugada de Dvadashi, a pessoa deve se ocupar em tomar banhos, adorar o Senhor, e executar atividades devocionais, inclusive dando caridade e realizando sacrifícios de fogo. Se acontecerem circunstâncias difíceis e não se puder quebrar o Ekadashi devidamente no Dvadashi, pode-se quebrá-lo bebendo água, e então não se incorre numa falta por comer após o horário recomendado.

 

Um devoto do Senhor Vishnu que dia e noite ouve estes tópicos totalmente auspiciosos concernentes ao Senhor, da boca de outro devoto, será elevado ao planeta do Senhor e residirá ali por dez milhöes de kalpas. (10) E quem ouve mesmo apenas uma frase sobre as glórias do Ekadashi é libertado das reaçöes a tais pecados como matar um brahmana. (11) Não há dúvida quanto a isso. Por toda eternidade não haverá melhor maneira de adorar o Senhor Vishnu que observar um jejum no Ekadashi."

 

Assim termina a narrativa do Margashirsha-krshna Ekadashi, ou Utpanna Ekadashi, extraída do Bhavisya-uttara Purana.

 

Notas:

(1) Na civilização védica é proibido se desfrutar de sexo com a própria filha, mãe, cunhada, ou qualquer parenta feminina.

 

(2) O Mahabharata declara: annadau jaladas caiva aturas ca cikitsakah / trividham svargam ayati vina yajnena bharatah - "ó Bharata, quem dá grãos alimentícios, água potável, remédio ou auxílio médico aos necessitados vai para o céu sem realizar qualquer tipo de sacrifício."

 

(3) O Amara-kosha dá os nomes dos oito Vasus conforme a seguir: Dhara, Dhruva, Soma, Aha, Anila, Anala, Pratyusha, e Prabhava.

 

(4) É claro, não há questão de temor ou fadiga para o Senhor Supremo. Ele fingiu isso como parte de Seu passatempo no qual surgiu Ekadashi-devi.

 

(5) Um kalpa, ou doze horas do Senhor Brahma, dura 4.320.000.000 anos. Como o Senhor Krishna diz no Bhagavad-gita 8.21 que "aquele que chega à Minha morada nunca retorna ao mundo material," entende-se que durante o bilhão de kalpas em que o devoto reside na morada do Senhor Vishnu, ele realizará serviço devocional e assim se qualificará para permanecer ali eternamente.

 

(6) Alguns dos dias de jejum no calendário védico:

 

Trtiya: Há um Trtiya em que se deve jejuar. Este dia ocorre durante a parte iluminada do mês de Vaisakha (abr/mai). Neste dia se deve adorar o Brahman Supremo e tomar banho no oceano.

 

Ashtami: Estes dias de jejum incluem Krishna-Janmastami, Radhastami, e Gopastami, quando se deve jejuar até meia-noite, meio-dia, e o por-do-sol, respectivamente.

 

Navami: Estes incluem Rama Navami e Akshaya Navami.

 

Caturdasi: Estes dias de jejum incluem Nrsimha Caturdasi, Ananta Caturdasi, e Shiva Caturdasi.

 

Ekadashi: Dentre todos estes dias de jejum, Ekadashi é o mais querido pelo Senhor Krishna. Quem não puder observar todos estes dias de jejum pode ter mérito de cada um deles apenas por observar Ekadashi uma única vez.

 

 

(7) Os três meios recomendados de observar jejum no Ekadashi são jejuar completamente, comer apenas no jantar, ou comer apenas em algum outro horário durante o dia. Se a pessoa de fato comer, deve abster-se totalmente de grãos e feijöes.

 

(8) As vezes, por diversas razöes astronômicas, Ekadashi deve ser observado no dia seguinte, Dvadashi. Este Maha-dvadashi é considerado muito auspicioso.

 

(9) O mantra de oito sílabas é om namo Narayanaya.

 

(10) Vide nota 5.

 

(11) Quem mata um brahmana e depois ouve sobre as glórias do Utpanna Ekadashi será aliviado da reação deste pecado. Contudo, não se deve pensar de antemão que se pode matar um brahmana e depois passar sem castigo simplesmente por ouvir sobre este Ekadashi. Cometer pecado sabendo isto é uma abominação.


2 MOKSHADA EKADASHI

 

Yudhishthira Maharaja disse: "ó Vishnu, controlador de todos, ó deleite dos três mundos, ó Senhor do universo, ó criador do mundo, ó personalidade mais antiga, ó melhor de todos seres, ofereço minhas respeitosas reverências a Ti. ó Senhor dos senhores, para benefício de todas entidades vivas, tenha a bondade de responder algumas perguntas que tenho. Qual o nome do Ekadashi que ocorre durante a quinzena clara do mês de Margashirsha e que remove todos pecados? Como é observado corretamente, e qual Deidade é adorada nesse dia sagrado? ó Senhor, por favor explique isto plenamente para mim."

 

O Senhor Krishna respondeu: "ó Yudhishthira, tua indagação é muito auspiciosa e te trará fama. Assim como anteriormente expliquei-te o mui querido Utpanna Maha-dvadashi (1) - que ocorre durante a parte obscura do mês de Margashirsha, que é o dia quando Ekadashi-devi apareceu de Meu corpo para matar o demônio Mura, e que beneficia tudo que é animado e inanimado nos três mundos - assim te explicarei agora o Ekadashi que ocorre durante a parte clara de Margashirsha. Este Ekadashi é famoso como Mokshada porque purifica o devoto fiel de todas reaçöes pecaminosas e lhe confere a liberação. A Deidade adorável deste dia é o Senhor Damodara. Com plena atenção se deve adorá-Lo com incenso, uma lamparina de ghee, flores, e tulasi manjaris (florescências).

 

ó melhor dos reis, por favor ouça enquanto narro para ti a velha e auspiciosa história deste Ekadashi. Simplesmente por ouvir esta história se pode obter o mérito acumulado por realizar um sacrifício de cavalo. Por influência deste mérito, nossos antepassados, mães, filhos e outros parentes que foram para o inferno podem ir para o céu. Apenas por esta razão, ó rei, deves ouvir cuidadosamente esta narrativa.

 

Uma vez havia uma linda cidade chamada Champaka-nagara, decorada com devotados Vaisnavas. Ali o melhor dos reis santos, Maharaja Vaikhanasa, governava seus súditos como se fossem seus filhos e filhas. Os brahmanas naquela capital eram todos peritos em quatro tipos de conhecimento védico. O rei, enquanto governava corretamente, teve um sonho em certa noite no qual seu pai estava sofrendo os golpes da tortura num planeta infernal. O rei foi tomado de compaixão e derramou lágrimas. Na manhã seguinte, Maharaja Vaikhanasa descreveu seu sonho para seu conselho de brahmanas duas-vezes nascidos.

 

brahmanas," disse o rei, "num sonho na noite passada vi meu pai sofrendo num planeta infernal. Ele estava gritando: "ó filho, por favor salva-me do tormento deste inferno!" Agora não tenho nenhuma paz, e até mesmo esse belo reino se tornou insuportável para mim. Nem mesmo meus cavalos, elefantes, e quadrigas me dão qualquer alegria, e meu vasto tesouro não me dá nenhum prazer.

 

Tudo, ó melhores dos brahmanas, até minha própria esposa e filhos, se tornou uma fonte de infelicidade desde que vi meu querido pai sofrendo as torturas do inferno. Onde posso ir, e que posso fazer, ó brahmanas, para aliviar esta miséria? Meu corpo está queimando de temor e tristeza! Por favor digam-me que tipo de caridade, que modalidade de jejum, qual austeridade, ou que profunda meditação poderei realizar para salvar meu pai de sua agonia e conceder liberação à meus antepassados. ó melhores dos brahmanas, qual o sentido de ser um filho poderoso se nosso pai deve sofrer num planeta infernal? Realmente, a vida de tal filho é totalmente inútil!"

 

Os brahmanas duas vezes nascidos replicaram: "ó rei, na floresta montanhosa não longe daqui fica o ashrama onde o grande santo Parvata Muni reside. Por favor vá até ele, pois conhece o passado, presente e futuro de tudo e certamente pode ajudar-te em tua miséria."

 

Ao ouvir este conselho, o pesaroso rei imediatamente partiu numa jornada rumo ao ashrama do famoso sábio Parvata Muni. O ashrama era muito grande e abrigava muitos sábios eruditos peritos em cantar os hinos sagrados dos quatro Vedas. (2) Aproximando-se do sagrado ashrama, o rei contemplou Parvata Muni sentado entre os sábios como um outro Senhor Brahma, o criador não-nascido.

 

Maharaja Vaikhanasa ofereceu suas humildes reverências ao muni, curvando sua cabeça e então prostrando-se de corpo inteiro. Depois que o rei se sentara, Parvata Muni perguntou-lhe sobre o bem estar das sete partes de seu extenso reino. (3) O muni também perguntou-lhe se seu reino estava livre de problemas e se todos estavam tranquilos e felizes. A estas indagaçöes o rei respondeu: "Por sua misericórdia, ó glorioso sábio, todas sete partes de meu reino estão passando bem. Contudo existe um problema que surgiu recentemente, e para resolvê-lo vim lhe procurar, ó brahmana, para sua orientação perita."

 

Então Parvata Muni, o melhor dos sábios, fechou seus olhos e meditou no passado, presente e futuro do rei. Após alguns momentos abriu seus olhos e disse: "Teu pai está sofrendo os resultados de cometer um grande pecado, e descobri o que é. Em sua vida pretérita ele brigou com a esposa quando desfrutou dela sexualmente durante seu período menstrual. Ela tentou resistir seus avanços e gritou: "Alguém por favor salve-me! Por favor, ó marido, não interrompa meu período mensal!" Ainda assim ele não a deixou em paz. É devido a este pecado atroz que seu pai caiu em tal condição infernal."

 

O Rei Vaikhanasa então disse: "ó melhor dos sábios, por qual processo de jejum ou caridade posso liberar meu querido pai de tal condição? Por favor diga-me como posso remover o fardo de suas reaçöes pecaminosas, que são um grande obstáculo a seu progresso para a liberação final."

 

Parvata Muni replicou: "Durante a quinzena clara do mês de Margashirsha ocorre um Ekadashi chamado Mokshada. Se observares este sagrado Ekadashi estritamente, com um jejum completo, e deres diretamente a teu pai sofredor o mérito que assim obtiveres, ele será libertado de sua dor e instantaneamente liberado."

 

Ouvindo isso, Maharaja Vaikhanasa agradeceu profusamente o grande sábio e então retornou a seu palácio. ó Yudhishthira, quando a parte clara do mês de Margashirsha afinal chegou, Maharaja Vaikhanasa fiel e perfeitamente observou o jejum de Ekadashi com sua esposa, filhos e outros parentes. Ele zelosamente entregou o mérito de seu jejum a seu pai, e enquanto fazia a oferenda, lindas flores choviam do céu. O pai do rei então foi louvado por mensageiros dos semideuses e escoltado até as regiöes celestiais. Enquanto passava por seu filho, o pai disse para o rei: "Meu querido filho, toda auspiciosidade para ti!" Afinal ele alcançou o reino celestial. (4)

 

ó Filho de Pandu, quem quer que observe estritamente o sagrado Mokshada Ekadashi, seguindo as regras e regulaçöes estabelecidas, alcança a liberação total e perfeita após a morte. Não melhor dia de jejum que este Ekadashi da quinzena clara do mês de Margashirsha, ó Yudhishthira, pois é um dia claro como o cristal e sem pecado. Quem quer que observe fielmente este jejum de Ekadashi, que é como cintamani (uma jóia que realiza todos desejos), obtém mérito especial que é muito difícil de calcular, pois este dia pode elevar-nos aos planetas celestiais e mais além - à liberação perfeita."

 

Assim termina a narrativa das glórias do Margashirsha Ekadashi ou Mokshada Ekadashi, do Brahmanda Purana.

 

Notas:

 

(1) Quando Ekadashi cai num Dvadashi, devotos ainda assim chamam-no de Ekadashi.

 

(2) Os quatro Vedas são o Sama, Yajur, Rg e Atharva.

 

(3) As sete partes do domínio de um rei são o próprio rei, seus ministros, seu tesouro, suas forças armadas, seus aliados, os brahmanas, os sacrifícios realizados em seu reino, e as necessidades de seus súditos.

 

(4) Se uma pessoa observa um jejum de Ekadashi para um antepassado falecido que está sofrendo no inferno, então o mérito assim obtido capacita o antepassado a deixar o inferno e entrar no reino celestial, onde poderá então praticar serviço devocional a Krishna ou Vishnu e retornar a Deus. Porém quem observa Ekadashi para sua própria elevação espiritual regressa ele mesmo para Deus, para nunca mais retornar a esse mundo material.

 

3 PAUSHA-KRISHA OU SAPHALA EKADASHI

 

Yudhishthira Maharaja disse: "ó Sri Krishna, qual o nome do Ekadashi que ocorre durante a quinzena obscura do mês de Pausha (dez/jan)? Como é observado, e qual Deidade é adorada nesse dia? Por favor narra-me isso plenamente, ó Janardana."

 

A Suprema Personalidade de Deus respondeu: "ó melhor dos reis, porque desejas ouvir, descreverei plenamente para ti as glórias do Pausha-krishna Ekadashi.

 

Não fico tão satisfeito pelo sacrifício ou caridade, como fico quando Meus devotos observam um jejum total no Ekadashi. Conforme sua melhor possibilidade, portanto, a pessoa deve jejuar no Ekadashi, o dia do Senhor Hari.

 

ó Yudhishthira, urge que ouças com atenção indesviável as glórias do Pausha-krishna Ekadashi, que cai no Dvadasi. Conforme expliquei anteriormente, não se deve diferenciar entre os muitos Ekadashis. ó rei, para beneficiar a humanidade em geral agora descrever-te-ei o processo de observar Pausha-krishna Ekadashi.

 

Pausha-krishna Ekadashi também é conhecido como Saphala Ekadashi. Neste dia sagrado se deve adorar o Senhor Narayana, pois Ele é sua Deidade governante. Deve-se seguir o método anteriormente descrito de jejuar. Assim como entre as serpentes Shesha-naga é a melhor, entre as aves Garuda é o melhor, entre os sacrifícios Ashvamedha-yajna é o melhor, entre os rios a Mãe Ganga é a melhor, entre os deuses o Senhor Vishnu é o melhor, e entre os seres bípedes os brahmanas são os melhores, assim também entre todos dias de jejum, Ekadashi é o melhor. ó principal dos reis nascidos na dinastia Bharata, quem quer que observe estritamente Ekadashi se torna muito querido por Mim e verdadeiramente adorável para Mim de qualquer maneira. Agora ouça enquanto descrevo o processo para observar Saphala Ekadashi.

 

No Saphala Ekadashi Meu devoto deve adorar-Me oferecendo-Me frutas frescas segundo o tempo, lugar e circunstância, e por meditar em Mim como a completamente auspiciosa Personalidade Suprema. Ele deve oferecer-Me frutas jambira, romãs, betel, côco, goiaba, nozes, cravos, mangas, e diferentes tipos de especiarias aromáticas. Também deve oferecer-Me incenso e luminosas lamparinas de ghee, pois tal oferenda de lamparinas no Saphala Ekadashi é especialmente gloriosa. O devoto deve tentar ficar acordado a noite toda.

 

Agora por favor ouça com a atenção indesviável enquanto te conto quanto mérito se obtém se jejuar e permanecer acordado durante a noite inteira. ó melhor dos reis, não existe sacrifício ou peregrinação que confira mérito equivalente ou maior que o mérito que se obtém por jejuar no Saphala Ekadashi. Tal jejum - particularmente se a pessoa puder permanecer acordada a noite toda - confere o mesmo mérito ao fiel devoto como se realizasse austeridade durante cinco mil anos. ó leão entre os reis, por favor ouça a gloriosa história deste Ekadashi.

 

Uma vez havia uma cidade chamada Campavati, que era governada pelo santo Rei Mahishmata. Tinha ele quatro filhos, o mais velho dos quais, Lumpaka, sempre estava ocupado em atividades muito pecaminosas - sexo ilícito com as esposas de outros, jogatina, e contínua associação com conhecidas prostitutas. Seus maus atos gradualmente reduziram a fortuna de seu pai, o Rei Mahishmata. Lumpaka também se tornou muito crítico para com os semideuses e brahmanas, e a cada dia blasfemava Vaisnavas. Afinal o Rei Mahishmata, vendo a condição de seu filho, exilou-o na floresta. Por medo do rei, até mesmo parentes compadecidos não acorreram em defesa de Lumpaka, tão zangado estava o rei e tão pecaminoso era Lumpaka.

 

Desnorteado em seu exílio, Lumpaka pensava consigo mesmo: "Meu pai me mandou embora, e até meus familiares não levantaram nenhuma objeção. Que devo fazer agora?" Ele tramava pecaminosamente e pensava: "Vou voltar furtivamente para a cidade, oculto nas trevas e roubar todas riquezas. Durante o dia ficarei de longe na floresta, e à noite retornarei para a cidade." Pensando assim, Lumpaka entrou na escura floresta. Matava muitos animais durante o dia, e de noite roubava artigos valiosos da cidade. Os habitantes da cidade pegaram-no diversas vezes, porém por temor ao rei deixaram-no sozinho. Pensavam que devia ser devido aos pecados de seus nascimentos pretéritos que perdera suas facilidades reais e que agia tão pecaminosamente.

 

Embora um carnívoro, Lumpaka também comia frutas todo dia. Residia sob uma velha árvore banyan que por acaso era muito querida pelo Senhor Vasudeva. De fato, muitos adoravam-na como o deus de todas árvores da floresta. No devido decorrer do tempo, enquanto Lumpaka estava realizando tantas atividades pecaminosas e condenáveis, chegou Saphala Ekadashi. Na véspera de Ekadashi, Lumpaka teve que passar a noite inteira sem dormir devido ao frio severo e sua pouca roupa de cama. O frio não só roubou-lhe toda tranquilidade mas também quase o matou. Quando o sol se levantou, seus dentes batiam e ele estava em coma, e durante toda manhã daquele dia, Ekadashi, ele não conseguia acordar de seu estupor.

 

Quando o meio-dia do Saphala Ekadashi chegou, o pecaminoso Lumpaka finalmente voltou a si e conseguiu levantar de seu lugar sob a árvore banyan. Mas a cada passo tropeçava e caía no chão. Como um coxo, andava lenta e hesitantemente, sofrendo grandemente pela fome e sede em meio à selva. Tão fraco estava Lumpaka que nem sequer conseguiu matar um só animal naquele dia. Em vez disso, viu-se reduzido a coletar quaisquer frutas que tivessem caído ao solo. Na hora em que retornou para a árvore banyan, o sol se pusera.

 

Colocando as frutas no chão perto dele, Lumpaka começou a berrar: "Oh, que infelicidade! Que devo fazer? Querido pai, a que ponto cheguei? ó Sri Hari, por favor seja misericordioso para comigo e aceite estas frutas!" Novamente foi forçado a ficar acordado a noite toda sem dormir, mas nesse meio tempo a Suprema Personalidade de Deus, Madhusudana, ficara satisfeito com a oferenda de Lumpaka das frutas silvestres, e Ele as aceitou. Lumpaka sem querer observara um jejum completo de Ekadashi, e assim pelo mérito que angariou naquele dia, recuperou seu reino sem maiores obstáculos.

 

Ouça, ó Yudhishthira, o que aconteceu com o filho do Rei Mahishmata quando apenas um fragmento de mérito brotou dentro de seu coração.

 

Enquanto o sol nascia belamente na manhã seguinte ao Ekadashi, um lindo cavalo aproximou-se de Lumpaka e postou-se perto dele. Ao mesmo tempo, uma voz repentinamente falou do céu claro e azul: "Este cavalo é para ti, Lumpaka! Monta nele e rapidamente cavalga para saudar tua família! ó filho do Rei Mahishmata, pela misericórdia do Senhor Vasudeva e a força de mérito que adquiriste por observar Saphala Ekadashi, teu reino lhe foi devolvido sem quaisquer empecilhos maiores. Tal é o benefício que adquiriste por jejuar neste dia auspicioso. Agora vai até teu pai e desfruta de teu devido lugar nesta dinastia."

 

Ao ouvir estas palavras celestiais, Lumpaka montou no cavalo e cavalgou de volta para a cidade de Campavati. Pelo mérito que acumulara por jejuar no Saphala Ekadashi, ele se tornara um belo príncipe novamente e pode absorver sua mente nos pés de lótus da Suprema Personalidade de Deus, Hari. Em outras palavras, ele se tornara Meu devoto puro.

 

Lumpaka ofereceu a seu pai, o Rei Mahishmata, suas humildes reverências e uma vez mais aceitou suas responsabilidades de príncipe. Vendo seu filho decorado com ornamentos Vaisnavas e tilaka, o Rei Mahishmata deu-lhe o reino, e Lumpaka governou sem oposição por muitos e muitos anos. Sempre que ocorria Ekadashi, ele adorava o Senhor Supremo com grande devoção. E pela misericórdia de Sri Krishna ele obteve uma bela esposa e bom filho. Na velhice Lumpaka entregou seu reino a seu filho - assim como seu pai, o Rei Mahishmata, havia feito com ele - e então foi para a floresta servir o Senhor Supremo com a mente e sentidos controlados. Purificado de todo desejo material, abandonou seu corpo e retornou ao lar, de volta para Deus, obtendo um local próximo aos pés de lótus do Senhor Sri Krishna.

 

ó Yudhishthira, quem se aproxima de Mim como Lumpaka fez será completamente liberto da lamentação e ansiedade. Na verdade, qualquer pessoa que observe corretamente este glorioso Saphala Ekadashi - mesmo que seja sem saber, tal como Lumpaka - se tornará famosa neste mundo. Tornar-se-á perfeitamente liberada na morte e retornará para Vaikuntha. Quanto a isso não há dúvida. Além do mais, quem quer que simplesmente ouça as glórias do Saphala Ekadashi, obtém o mesmo mérito derivado por quem realiza um Rajasuya-yajna, e no mínimo vai para o céu em seu próximo nascimento."

 

Assim termina a narrativa das glórias do Pausha-krishna Ekadashi ou Saphala Ekadashi, do Bhavishya-uttara Purana.

 

4 PUTRADA EKADASHI

 

Yudhishthira Maharaja disse: "ó Senhor, explicaste tão bem as glórias do auspicioso Saphala Ekadashi, que ocorre durante a quinzena obscura do mês de Pausha (dez/jan). Agora por favor seja misericordioso para comigo e explique o Ekadashi da quinzena luminosa deste mês. Qual é seu nome, e que Deidade deve ser adorada neste dia sagrado? ó Purushottama, ó Hrshikesha, por favor também conta-me como podes ser satisfeito neste dia."

 

O Senhor Sri Krishna respondeu: "ó rei, para benefício de toda humanidade, relatarei para ti como observar jejum no Pausha-sukla Ekadashi.

 

Conforme expliquei anteriormente, todos devem observar as regras e regulaçöes de Ekadashi ao melhor de sua capacidade. Esta injunção se aplica ao Ekadashi chamado Putrada, que destrói todos pecados e nos eleva à morada espiritual. Sri Narayana, o Senhor Supremo e personalidade original, é a Deidade adorável deste Ekadashi, e para Seu devoto fiel Ele alegremente realiza todos desejos e concede plena perfeição. Assim entre todos seres animados e inanimados nos três mundos, não existe melhor personalidade que o Senhor Narayana.

 

ó rei, agora narrarei para ti a história de Putrada Ekadashi, que remove todos tipos de pecados e nos torna famosos e eruditos.

 

Uma vez havia um reino chamado Bhadravati, que era governado pelo Rei Suketuman. Sua rainha era a famosa Shaibya. Porque não tinha filho, ele passou longo tempo em ansiedade, pensando: "Se não tiver um filho, quem irá continuar minha dinastia?" Desta maneira o rei meditou numa atitude religiosa durante longo tempo, pensando: "Onde devo ir? Que devo fazer? Como posso conseguir um filho?" O Rei Suketuman não conseguia a felicidade em lugar algum em seu reino, mesmo em seu próprio palácio, e em breve estava passando mais e mais tempo dentro do palácio de sua esposa, pensando melancolicamente apenas em como conseguir um filho.

 

Assim ambos, o Rei Suketuman e a Rainha Shaibya, estavam em grande sofrimento. Mesmo quando ofereciam tarpana (oblaçöes de água para seus antepassados), sua miséria mútua os fazia pensar que era tão impossível de beber quanto água fervente. Pensavam que não teriam descendentes para oferecer-lhes tarpana quando morressem. O rei e rainha estavam especialmente perturbados por saberem que seus antepassados estavam preocupados que dentro em breve não haveria mais ninguém para lhes oferecer tarpana.

 

Após saberem da infelicidade de seus antepassados, o rei e a rainha se tornaram mais e mais miseráveis, e tampouco os ministros, amigos, nem entes amados conseguiam alegrá-los. Para o rei, seus elefantes e cavalos e infantaria não eram consolo, e afinal ele ficou praticamente inerte e desamparado.

 

O rei pensou: "Dizem que sem filho, o casamento é perda de tempo. De fato, para um chefe-de-família sem filho, tanto seu coração e sua esplêndida casa permanecem vazios e infelizes. Destituído de filhos, um homem não consegue liquidar a dívida que tem para com seus antepassados, os semideuses, e outros seres humanos. Portanto todo homem casado deve tentar conceber um filho; assim ele poderá se tornar famoso dentro deste mundo e afinal alcançar os auspiciosos reinos celestiais. Um filho é prova das atividades piedosas que um homem realizou em suas cem vidas pretéritas, e tal pessoa obtém longa duração de vida neste mundo, junto com boa saúde e grande fortuna. Possuir filhos e netos nesta vida prova que se adorou o Senhor Vishnu, a Suprema Personalidade de Deus, no passado. As grandes bençãos de filhos, fortuna, e inteligência aguda podem ser conseguidas apenas por adorar o Senhor Supremo, Sri Krishna. Isto é minha opinião."

 

Pensando assim, o rei não tinha paz. Permanecia em ansiedade dia e noite, desde a manhã até a noitinha, e desde o momento em que se deitava para dormir à noite até que o sol nascia pela manhã, seus sonhos eram igualmente cheios de grande ansiedade. Sofrendo tal ansiedade e apreensão, o Rei Suketuman decidiu acabar com sua miséria cometendo suicídio. Porém percebeu que suicídio lança a pessoa numa condição infernal de renascimento, e assim abandonou essa idéia. Vendo que estava gradualmente se destruindo através de sua ansiedade de ter um filho que o consumia totalmente, o rei afinal montou em seu cavalo e partiu sozinho para a densa floresta. Ninguém, nem mesmo os sacerdotes e brahmanas do palácio, sabiam onde tinha ido.

 

Nessa floresta, que era cheia de veados e aves e outros animais, o Rei Suketuman vagou sem destino, notando todos diferentes tipos de árvores e arbustos, tais como figueiras, fruta bel, tamareiras, palmeiras, jaqueiras, árvores bakula, saptaparna, tinduka e tilaka, bem como shala, tala, tamala, sarala, hingota, arjuna, labhera, baheda, sallaki, karonda, patala, khaira, shaka e palasha. Viu veados, tigres, javalis selvagens, leöes, macacos, cobras, grandes elefantes machos no cio, elefantas com suas crias, e elefantes com quatro presas junto de seus pares. Havia vacas, chacais, lebres, leopardos, e hipopótamos. Contemplando todos esses animais acompanhados de seus pares e rebentos, o rei lembrou de seu próprio criadouro, especialmente dos elefantes do palácio, e ficou tão triste que impensadamente vagava no meio deles.

 

De repente, o rei ouviu um uivo de chacal à distância. Espantado, começou a perambular, olhando em todas direçöes. Logo era meio-dia, e o rei começou a cansar. Estava atormentado pela fome e sede. Pensou: "Que ato pecaminoso possivelmente pratiquei que agora sou forçado a sofrer assim, com minha garganta ressecada e ardendo? Agradei os semideuses com numerosos sacrifícios de fogo e abundante adoração devocional. Dei muitos presentees e deliciosos doces como caridade a todos brahmanas dignos. E cuidei de meus súditos como se fossem meus próprios filhos. Porque estou sofrendo assim? Que pecados desconhecidos vieram me atormentar desta maneira horrivel?"

 

Absorto em tais pensamentos, o Rei Suketuman seguia adiante com esforço, e eventualmente, devido a seu crédito piedoso, chegou a uma bela lagoa que se assemelhava ao famoso Lago Manasarovara. Estava cheio de espécies aquáticas, inclusive crocodilos e muitas variedades de peixes, e adornado de açucenas. Belos lótus haviam se aberto ao sol, e cisnes, grous e patos nadavam felizes em suas águas. Perto havia muitos ashramas atraentes, onde residiam muitos santos e sábios que podia realizar os desejos de qualquer pessoa. De fato, desejavam o bem de todos. Quando o rei viu tudo isso, seu braço direito e olho começaram a tremer, um sinal de que algo auspicioso estava para acontecer.

 

Enquanto o rei desmontava de seu cavalo e ficava de pé diante dos sábios, que estavam sentados na beira da lagoa, viu que estavam cantando os santos nomes de Deus em suas contas de japa. O rei prestou suas reverências e, de mãos postas, glorificou-os. Estava mais do que feliz por estar na presença deles. Observando o respeito que o rei lhes oferecia, os sábios disseram: "Estamos muito contentes contigo, ó rei. Tenha a bondade de nos dizer porque vieste até aqui? Que se passa em tua mente? Por favor diga-nos o que desejas."

 

O rei respondeu: "ó grandes sábios, quem sois? Quais são vossos nomes, ó santos auspiciosos? Porque viestes a este lindo lugar? Por favor dizei-me tudo."

 

Os sábios responderam: "ó rei, somos os Vishvedevas (1); viemos até essa maravilhosa lagoa para tomar banho. O mês de Magha estará aqui dentro de cinco dias, e hoje é o famoso Putrada Ekadashi. Quem deseja um filho deve observar estritamente este Ekadashi. (2)"

 

O rei disse: "Tentei com tanto esforço ter um filho. Se vós grandes sabios estais satisfeitos comigo, por bondade concedei-me um bom filho."

 

"O próprio significado de Putrada" responderam os sábios, "é "doador de filhos". Portanto por favor observa um jejum completo neste dia de Ekadashi. Se o fizeres, então por nossa benção - e pela misericórdia do Senhor Keshava - certamente obterás um filho."

 

Com o conselho dos Vishvedevas, o rei observou o auspicioso dia de jejum de Putrada Ekadashi conforme todas regras e regulaçöes estabelecidas, e no Dvadashi, após quebrar seu jejum, ele prestou suas reverências repetidamente a todos eles.

 

Logo depois que Suketuman retornou a seu palácio, a Rainha Shaibya ficou grávida, e exatamente como os sábios Vishvedevas tinham predito, nasceu-lhes um belo filho de rosto luminoso. No devido tempo ele se tornou famoso como um príncipe heróico, e o rei de bom grado satisfez seu filho tornando-o seu sucessor. O filho de Suketuman cuidou de seus súditos mui conscienciosamente, assim como se fossem seus próprios filhos.

 

Concluindo: ó Yudhishthira, quem deseja realizar seus desejos deve observar estritamente Putrada Ekadashi. Enquanto estiver neste planeta, quem observa estritamente este Ekadashi certamente obterá um filho, e após a morte obterá a liberação. Qualquer pessoa que até mesmo lê ou ouve as glórias de Putrada Ekadashi obtém o mérito acumulado por realizar um sacrifício de cavalo. É para beneficiar toda humanidade que expliquei tudo isso para ti."

 

Assim termina a narrativa das glórias do Pausha-sukla Ekadashi ou Putrada Ekadashi, do Bhavishya Purana.

 

Notas:

 

(1) Os dez Vishvedevas, os filhos de Vishva, são Vasu, Kratu, Daksha, Kala, Kama, Dhrti, Pururava, Madrava, e Kuru.

 

(2) A palavra sânscrita para "filho" é putra. Pu é o nome de determinado inferno, e tra significa "salvar". Assim a palavra putra significa "uma pessoa que salva alguém do inferno chamado Pu". Portanto cada homem casado deve produzir pelo menos um filho e treiná-lo devidamente; então o pai será salvo de uma condição de vida infernal. Porém esta injunção não se aplica aos devotos sérios do Senhor Vishnu ou Krishna, pois o Senhor se torna seu filho, pai, e mãe.

Além do mais Chanakya Pandita diz:

 

satyam mata pita jnanam

dharmo bhrata daya sakha

shantih patni kshama putrah

shadete mama vandhavah

 

"A verdade é minha mãe, o conhecimento é meu pai, meu dever ocupacional é meu irmão, a bondade é minha amiga, tranquilidade minha esposa, e o perdão meu filho. Estes seis são os membros de minha família." Entre as vinte e seis principais qualidades de um devoto do Senhor, o perdão é o principal. Portanto devotos devem fazer um esforço extra para desenvolver esta qualidade. Aqui Chanakya diz: "O perdão é meu filho," e portanto um devoto do Senhor, mesmo embora possa estar na senda da renúncia, poderá observar Putrada Ekadashi e orar por obter este tipo de "filho".

 

5 SAT-TILA EKADASHI

 

Dalbhya Rishi disse para Pulastya Muni: "Quando a alma espiritual entra em contato com a energia material, imediatamente começa a realizar atividades pecaminosas, tais como roubar, matar, e sexo ilícito. Poderá até realizar muitos outros atos terríveis, tais como matar um brahmana. ó mais pura das personalidades, por favor conte-me como estas almas desafortunadas podem escapar da punição de serem mandadas às regiöes infernais da criação. Por bondade informe como, dando mesmo um pouquinho de caridade, se pode facilmente ficar livre de seus pecados."

 

Pulatsya Muni respondeu: "ó ser afortunado, perguntaste uma pergunta boa e confidencial, que nem mesmo Brahma, Vishnu, Shiva ou Indra jamais perguntaram. Por favor ouça minha resposta muito cuidadosamente.

Com a chegada do mês de Magha (jan/fev), deve-se tomar banho, controlar cuidadosamente os sentidos abandonando a luxúria, ira, orgulho, inveja, buscar erros, e cobiça, e meditar na Suprema Personalidade de Deus, o Senhor Sri Krishna. Deve-se então juntar algum excremento de vaca antes que este toque o solo e, após misturá-lo com sementes de gergelim e algodão, formar 108 bolas. Isto deve ser feito no dia quando a constelação de Purvashadha-nakshatra chegar. Então se deve seguir as regras e regulaçöes de Ekadashi, que agora te explicarei.

 

Após tomar banho, a pessoa que tenciona observar Ekadashi deve adorar o Senhor Supremo. Enquanto ora ao Senhor Krishna cantando Seu nome, deve prometer observar o jejum de Ekadashi. Deve permanecer acordada a noite toda e realizar um homa. Então o devoto deve realizar arati para o Senhor - que segura uma concha, disco, maça, e assim por diante em Suas mãos - oferecendo-Lhe pasta de sândalo, incenso, cânfora, uma luminosa lamparina de ghee, e deliciosas preparaçöes de alimento. Em seguida o devoto deve oferecer as 108 bolas de excremento de vaca, sementes de gergelim, e algodão no fogo sagrado enquanto canta os santos nomes do Senhor Supremo, Sri Krishna. Durante todo o dia e a noite ele deve também observar o jejum padronizado de Ekadashi, que neste caso é um jejum de todos grãos e feijöes. Nesta ocasião se deve oferecer ao Senhor abóbora, côco, e goiaba. Se estes artigos não estiverem disponíveis, podem ser substituídos por noz de betel.

 

O devoto deve orar ao Senhor Janardana, o benfeitor de todos seres, desta maneira: "ó Senhor Sri Krishna, és a mais misericordiosa Personalidade de Deus e o liberador de todas almas caídas. ó Senhor, nós caímos no oceano da existência material. Por favor seja bondoso para conosco. ó divindade dos olhos de lótus, por favor aceite nossas mais humildes e afetuosas reverências. ó protetor do mundo, oferecemo-Lhe nossos respeitos de novo e de novo. ó Espírito Supremo, ó Ser Supremo, ó fonte de todos nossos antepassados, que Tu e Tua consorte Srimati Lakshmi-devi possam aceitar estas humildes oferendas."

 

O devoto deve então tentar agradar um brahmana qualificado com uma saudação calorosa, um pote cheio d'água, uma sombrinha, um par de sapatos, e roupas, pedindo-lhe ao mesmo tempo que conceda suas bençãos, pelas quais se pode desenvolver amor puro sem misturas por Krishna. Conforme a capacidade da pessoa, se pode doar uma vaca preta a tal brahmana, especialmente a um que seja bem versado em todas injunçöes das escrituras védicas. Deve-se oferecer a ele também um pote cheio de sementes de gergelim.

 

ó exaltado Dalbhya Muni, sementes de gergelim escuro são especialmente apropriadas para adoração formal e sacrifícios de fogo, enquanto que as brancas ou marrons se destinam a serem comidas por um brahmana qualificado. Quem puder providenciar doação de ambos tipos de sementes de gergelim neste sagrado Sat-tila Ekadashi será promovido aos planetas celestiais por tantos milhares de anos quanto o número de sementes que seria produzido se as sementes que dôou fossem plantadas e crescessem como plantas maduras, dando semente.

 

Neste Ekadashi, um pessoa fiel deve banhar-se em água misturada com sementes de gergelim, passar pasta de gergelim em seu corpo, oferecer sementes de gergelim em sacrifício, comer sementes de gergelim, dar sementes de gergelim como caridade, e aceitar dádivas caridosas de sementes de gergelim. Estes são os seis (sat) meios em que sementes de gergelim (tila) são utilizadas para purificação espiritual neste Ekadashi. Portanto se chama de Sat-tila Ekadashi.

 

O grande Devarishi Naradaji certa vez perguntou à Suprema Personalidade de Deus, Sri Krishna: "ó Senhor de braços poderosos, ó Tu que és tão afetuoso para com Teus devotos amorosos, por favor aceita minhas mais humildes reverências. ó Yadava, bondosamente diga-me o resultado que se obtém por observar Sat-tila Ekadashi."

 

O Senhor Sri Krishna retrucou: "ó melhor dos duas-vezes nascidos, vou narrar para ti um relato de um incidente que testemunhei pessoalmente. Há muito tempo, vivia na terra uma velha brahmani que Me adorava todo dia com os sentidos controlados. Ela mui fielmente observava bastante jejuns, especialmente em dias especiais em honra a Mim, e Me servia com plena devoção, sem qualquer motivo pessoal. Seus jejuns rigorosos a tornaram bastante fraca e magra. Dava caridade aos brahmanas e jovens donzelas, e até mesmo planejava dar sua casa como caridade. ó melhor dos brahmanas, embora esta mulher de mente espiritualizada desse donativos caridosos a pessoas dignas, a estranha característica de sua austeridade era que nunca dava alimento aos brahmanas ou semideuses.

 

Comecei a refletir sobre esta curiosa omissão: "Esta boa mulher se purificou por jejuar em todas ocasiöes auspiciosas e oferecer-Me adoração devocional estrita. Portanto ela certamente se tornou qualificada para entrar em Minha morada pessoal, que é inatingivel por pessoas comuns." Portanto desci a este planeta para examiná-la, disfarçando-Me como um seguidor do Senhor Shiva, completo com guirlanda de crânios ao redor de Meu pescoço e um pote de mendicante em Minha mão.

 

Quando Me aproximei dela, disse-Me: "ó ser respeitável, diga-me verdadeiramente porque vieste diante de mim."

 

Retruquei: "ó bela pessoa, vim para pegar alguns sagrados donativos teus." - ao que ela zangada, jogou um denso bolo de barro em Meu pote de mendicante! ó Narada, simplesmente virei e retornei para Minha morada pessoal, espantado com a peculiar mistura de grande magnanimidade e mesquinhez desta boa brahmani.

 

Afinal esta austera senhora chegou ao mundo espiritual naquele mesmo corpo, tão grandes foram seus esforços de jejum e caridade. E porque de fato Me oferecera um torrão de barro, transformei aquele barro numa linda casa. Contudo, ó Naradaji, esta casa em particular estava completamente destituída de qualquer grão comestível, bem como de qualquer móvel ou ornamentação, e quando entrou nela, encontrou apenas uma estrutura vazia. Portanto ela se aproximou de Mim e disse com grande raiva: "Jejuei repetidamente em tantas ocasiöes auspiciosas, tornando meu corpo fraco e magro. Te adorei e orei a Ti de tantas diferentes maneiras, pois és verdadeiramente o soberano e protetor de todos universos. Contudo apesar de tudo isso não há alimento ou riqueza para ser vista em minha nova casa, ó Janardana. Porquê isso?"

 

Respondi: "Por favor retorna para tua casa. Daqui a algum tempo as esposas dos semideuses te farão uma visita devido à curiosidade de ver quem acaba de chegar, mas não abra tua porta até que tenham descrito as glórias e a importância de Sat-tila Ekadashi."

 

Ouvindo isso, ela retornou para sua casa. Eventualmente as mulheres dos semideuses ali chegaram e em unísono disseram: "ó ser belo, viemos para obter teu darshana. ó ser auspicioso, por favor abra tua porta e nos deixe ver-te."

 

A senhora respondeu: "ó seres mais queridos, se quiserem que abra esta porta, devem descrever para mim o mérito obtido por observar o sagrado jejum de Sat-tila Ekadashi." Mas nenhuma das esposas respondeu.

 

Mais tarde, contudo, elas retornaram para a casa, e uma das esposas explicou bem a natureza sublime deste sagrado Ekadashi. E quando a senhora afinal abriu sua porta, viram que ela não era nem uma semideusa, nem Gandharvi, nem demônia, tampouco Naga-patni. Era simplesmente uma senhora comum.

 

A partir de então a senhora observou Sat-tila Ekadashi, que confere gozo material e liberação ao mesmo tempo, conforme lhe fora descrito. E ela finalmente recebeu as lindas guarniçöes e grãos que esperava para seu lar. Além do mais, aquele corpo material comum de antes, se transformou numa forma espiritual linda com uma bela compleição. Assim, pela misericórdia e graça de Sat-tila Ekadashi, tanto a senhora como seu novo lar no mundo espiritual afinal eram esplêndidos e luminosos com ouro, prata, jóias e diamantes.

 

ó Naradaji, uma pessoa não deve observar ostensivamente Ekadashi por cobiça, na esperança de obter fortuna desonestamente. Desinteressadamente, deve simplesmente doar sementes de gergelim, roupas, e alimento segundo sua capacidade, pois assim fazendo obterá boa saúde e consciência espiritual exaltada, nascimento após nascimento (2). Afinal, a liberação e o acesso à morada suprema do Senhor serão suas. Isto é minha opinião, ó melhor dos semideuses."

 

"ó Dalbhya Muni" Pulastya Rishi concluiu, "quem observa devidamente o maravilhoso Sat-tila Ekadashi com grande fé, se torna livre de todos tipos de pobreza - espiritual, física, social, e intelectual - bem como de todos tipos de má sorte e maus presságios. De fato, seguir este jejum de Ekadashi doando, sacrificando ou comendo sementes de gergelim, nos livra de todos pecados passados, sem nenhuma dúvida. Não é preciso querer saber como isso acontece. A rara alma que realiza corretamente estes atos de caridade no humor devocional certo, seguindo as injunçöes védicas, se tornará totalmente livre de todas reaçöes pecaminosas e voltará para Deus, de volta para o mundo espiritual."

 

Assim termina a narrativa das glórias do Magha-krishna Ekadashi ou Sat-tila Ekadashi, do Bhavishya-uttara Purana.

 

Notas:

 

(1) Embora no mundo espiritual ira e desejo material estejam totalmente ausentes, Sri Krishna providenciou para que a senhora demonstrasse estas qualidades para que as glórias de Sat-tila Ekadashi fossem reveladas.

 

(2) Para um Vaisnava, caridade significa dar consciência de Krishna, especialmente o cantar do Hare Krishna mantra. Como disse Sri Chaitanya Mahaprabhu, eka bar to mullhe hari bol bhai... ei matra bhiksha cai. "ó irmão, por favor cante Hare Krishna apenas uma vez... Esta é a única doação que peço." Se um devoto chefe-de-família puder arcar com a despesa, deverá dar algumas sementes de gergelim, roupas, ou alimentos como caridade a uma pessoa digna, mas isso não é obrigatório.

 

6 JAYA EKADASHI

 

Yudhishthira Maharaja disse: "ó Senhor dos senhores, Sri Krishna, todas as glórias a Ti! ó mestre do universo, só Tu és a fonte dos quatro tipos de entidades vivas - aquelas nascidas de ovos, aquelas nascidas da transpiração, aquelas nascidas de sementes, e aquelas nascidas de embriöes. Só tu és a causa-raiz de tudo, ó Senhor, e portanto Tu és o criador, mantenedor, e destruidor.

 

Meu Senhor, explicaste tão bondosamente para mim o auspicioso dia conhecido como Sat-tila Ekadashi, que ocorre durante a quinzena obscura do mês de Magha (jan/fev). Agora por favor explica o Ekadashi que ocorre durante a quinzena clara deste mês. Por que nome é conhecido, e qual o processo para se observá-lo? Quem é a Deidade que é adorada neste sublime dia, que Lhe é tão caro?"

 

O Senhor Sri Krishna replicou: "ó Yudhishthira, de bom grado te contarei sobre o Ekadashi que ocorre durante a metade clara do mês de Magha. Este Ekadashi oblitera todos tipos de reaçöes pecaminosas e influências demoníacas que afetam a alma espiritual. É conhecido como Jaya Ekadashi, e a alma afortunada que observa um jejum neste dia sagrado é aliviada do grande fardo da existência fantasmagórica. Assim não há Ekadashi melhor que este, pois realmente concede liberdade do nascimento e morte. Deve ser honrado com muito cuidado e diligentemente. Assim peço que Me ouças atentamente, ó Pandava, enquanto explico um episódio histórico maravilhoso referente a esse Ekadashi, um episódio que já relatei no Padma Purana.

 

Há muito, muito tempo atrás, nos planetas celestiais, o Senhor Indra governava seu reino celestial muito bem, e todos semideuses que viviam ali estavam felizes e contentes. Na floresta de Nandana, que era belamente decorada com flores parijata, Indra bebia ambrosia sempre que queria e desfrutava do serviço de cinquenta milhöes de donzelas celestiais, as Apsaras, que dançavam em êxtase para seu prazer.

 

Muitos cantores, liderados por Puspadanta, cantavam em doces vozes sem comparação. Citrasena, chefe dos músicos de Indra, estava ali na companhia de sua esposa Malini e seu belo filho Malyavan. Uma Apsara chamada Pushpavati ficou muito atraída por Malyavan; na verdade, as flechas pontiagudas de Cupido trespassaram o âmago de seu coração. Seu belo corpo e aparência, junto com os encantadores movimentos de suas sobrancelhas, cativaram Malyavan.

 

ó rei, ouça enquanto descrevo a esplêndida beleza de Pushpavati: Ela tinha braços incomparavelmente graciosos para abraçar um homem tal como um fino laço de seda; seu rosto assemelhava-se à lua; seus olhos de lótus chegavam quase às suas lindas orelhas, que eram adornadas por maravilhosos brincos; seu fino pescoço ornamentado parecia uma concha; sua cintura era muito delgada, do tamanho de um punho; seus quadris eram largos, e suas coxas como troncos de bananeiras; suas feiçöes naturalmente belas eram complementadas por deslumbrantes ornamentos e vestes; seus seios eram altamente elevados; e olhar para seus pés era como contemplar recém-brotados lótus vermelhos.

 

Vendo Pushpavati em toda sua beleza celestial, Malyavan ficou imediatamente enfeitiçado. Tinham vindo com outros artistas para agradar o Senhor Indra através do canto e dança encantadora, mas porque havia se enamorado mutuamente, atingidos no coração pelas flechas de Cupido, a luxúria personificada, ficaram completamente incapazes de cantar ou dançar devidamente diante do senhor e controlador dos reinos celestiais (1). Sua pronúncia estava errada e seu ritmo descuidado. O Senhor Indra entendeu a fonte dos erros de imediato. Ofendido ante a discórdia no espetáculo musical, ficou muito zangado e berrou: "Seus tolos inúteis! Fingem cantar para mim enquanto estão num estupor de paixão mútua! Estão troçando de mim! Amaldiçôo ambos a sofrerem como pisachas (duendes) daqui em diante. Como marido e mulher, vão para as regiöes terrenas e colham as reaçöes de suas ofensas."

 

Mudos diante destas duras palavras, Malyavan e Pushpavati imediatamente esmoreceram e caíram da linda Floresta de Nandana no reino do céu, para um pico do Himalaia aqui no planeta terra. Incalculavelmente angustiados, e com sua inteligência grandemente diminuída pelos efeitos da temível maldição de Indra, perderam seu sentido de paladar e olfato, e até mesmo seu sentido do tato. Era tão frio e miseravelmente alto nos desertos de neve e gelo do Himalaya que nem sequer conseguiam gozar do esquecimento do sono.

 

Vagando sem destino por aqui e por ali naquelas escarpadas alturas, Malyavan e Pushpavati sofriam mais e mais, de um momento ao outro. Embora estivessem situados numa caverna, devido à queda da neve e o frio, seus dentes batiam sem cessar, e seu cabelo se arrepiava de medo e perplexidade.

 

Nesta situação totalmente desesperada, Malyavan disse para Pushpavati: "Que abomináveis pecados cometemos para termos de sofrer nestes corpos de pisacha, neste meio-ambiente impossível. Isto é absolutamente infernal! Embora o inferno seja muito bárbaro, o sofrimento que estamos passando aqui é muito mais abominável. Portanto é abundantemente claro que jamais se deve cometer qualquer pecado."

 

E assim os aflitos amantes marchavam penosamente adiante na neve e gelo. Pela grande boa fortuna deles, entretanto, aconteceu que naquele mesmo dia era Jaya Ekadashi, o Ekadashi da quinzena luminosa do mês de Magha. Porque em sua miséria deixaram de beber qualquer água, matar qualquer caça, ou mesmo comer quaisquer frutas e folhas que estavam disponíveis àquela altura, sem saber haviam observado Ekadashi jejuando completamente de todo alimento e bebida. Imersos no sofrimento, Malyavan e Pushpavati

caíram sob uma árvore pippal e nem tentaram se levantar. O sol havia se posto àquela altura.

 

A noite foi ainda mais fria e mais desgraçada que o dia. Tremiam na gélida nevasca enquanto seus dentes batiam em unísono, e quando ficaram entorpecidos, abraçaram-se apenas para manter o calor. Fechados no abraço mútuo, não conseguiam desfrutar do sono nem do sexo. Assim sofreram pela noite toda por essa poderosa maldição de Indra.

 

Ainda assim, ó Yudhishthira, pela misericórdia do jejum que por acaso haviam observado no Jaya Ekadashi, e porque haviam permanecido acordados a noite toda, foram abençoados. Por favor ouça o que aconteceu no dia seguinte. Enquanto alvorecia o Dvadashi, Malyavan e Pushpavati haviam abandonado suas formas demoníacas e eram novamente belos seres celestiais usando ornamentos luzidios e vestes seletas. Enquanto se olhavam espantados, chegou um aeroplano celestial (vimana) no local. Um côro de habitantes celestiais cantava seus louvores enquanto o casal entrava na linda aeronave e proseguia diretamente para as regiöes celestiais, animado pelos bons votos de todos. Breve Malyavan e Pushpavati chegaram a Amaravati, a capital do Senhor Indra, e então imediatamente foram até seu senhor e lhe ofereceram alegres reverências.

 

O Senhor Indra ficou espantado de ver como haviam recuperado seu estado e formas originais depois que os havia amaldiçoado a sofrerem como demônios bem, bem abaixo do reino celestial. Indra perguntou-lhes: "Que atos extraordinariamente meritórios realizasteis para que pudesseis abandonar vossos corpos de pisacha tão rápido depois que vos amaldiçoei? Quem vos libertou de minha irresistível maldição?"

 

Malyavan respondeu: "ó senhor, foi pela misericórdia da Suprema Personalidade de Deus, o Senhor Vasudeva, e também pela poderosa influência do Jaya Ekadashi, que fomos libertados de nossa condição sofredora como pisachas. Isto é a verdade, ó senhor: Porque executamos serviço devocional ao Senhor Vishnu observando Jaya Ekadashi, o dia que Lhe é mais querido, felizmente recuperamos nossa posição anterior."

 

Indra disse: "Porque servistes o Supremo Senhor Keshava observando Ekadashi, vos tornastes adoráveis para mim, e posso ver que agora estais purificados do pecado. Quem quer que se ocupe em serviço devocional ao Senhor Sri Hari ou Senhor Shiva se torna digno de louvor e adorável até para mim. Quanto a isso não há dúvida." O Senhor Indra então deu para Malyavan e Pushpavati a liberdade de poderem desfrutar um do outro e vagar por seu planeta celestial.

 

Portanto, ó Yudhishthira, deve-se obervar estritamente um jejum no dia do Senhor Hari, especialmente no Jaya Ekadashi, que liberta a pessoa do pecado de matar até mesmo um brahmana duas vezes nascido. Uma grande alma que observa este jejum com plena fé e devoção de fato deu todos tipos de caridade, realizou todos tipos de sacrifício, e tomou banho em todos lugares sagrados de peregrinação. Jejuar no Jaya Ekadashi qualifica a pessoa para residir em Vaikuntha e desfrutar de interminável felicidade por bilhöes de yugas - na verdade, para sempre. ó grande rei, quem até mesmo ouve ou lê estas glórias do Jaya Ekadashi obtém o abençoado mérito obtido por realizar o sacrifício Agnistoma, durante o qual são recitados hinos do Sama-veda.

 

Assim termina a narrativa das glórias do Magha-sukla Ekadashi ou Jaya Ekadashi, do Bhavishya-uttara Purana.

 

Notas:

 

(1) Kamadeva, a luxúria personificada, tem cinco nomes segundo o dicionário Amara-kosha: kandarpa darpako 'nanga kamah panca-sharaih smarah. "Cupido tem cinco nomes: 1. Cupido; 2. Darpaka, "aquele que impede eventos futuros"; 3. Ananga, "aquele que não tem corpo físico; 4. Kama, "a luxúria personificada"; 5. Panca-sharaih, "aquele que segura cinco flechas".

 

Kandarpa - no décimo capítulo do Bhagavad-gita 10.28, o Senhor Krishna diz: prajanah casmi kandarpah: "Dentre as causas da procriação, Eu sou Kandarpa". A palavra kandarpa também significa "muito belo". Kandarpa apareceu como o filho de Krishna, Pradyumna, em Dvaraka.

 

Darpaka - este nome indica que Cupido pode perceber o que está para acontecer e impedí-lo de ocorrer. Especificamente, ele tenta impedir a atividade espiritual pura, atraindo nossa mente e por força nos ocupando na gratificação material sensorial.

 

Ananga - Certa vez, quando Cupido perturbou a meditação do Senhor Shiva, este poderoso semideus queimou-o até virar cinzas. Ainda assim, Shiva deu a Cupido a benção de que poderia atuar no mundo mesmo sem um corpo físico.

 

Kama - No Bhagavad-gita 7.11 o Senhor Krishna diz: dharmaviruddho bhuteshu kamo 'smi, "Eu sou a vida sexual que não é contrária aos princípios religiosos."

 

Panca-sharaih - As cinco flechas com as quais Cupido trespassa a mente das entidades vivas são o paladar, tato, som, olfato e visão.

 

Estes são os cinco nomes de Cupido, que encanta todas entidades vivas e as faz fazer o que ele quer. Sem receber a misericórdia do guru e Krishna, não se pode resistir seu poder.

 

7 VIJAYA EKADASHI

 

Yudhishthira Maharaja disse: "ó Senhor Sri Krishna, ó glorioso filho de Vasudeva, por favor seja misericordioso para comigo e descreva o Ekadashi que ocorre durante a quinzena obscura do mês de Phalguna (fev/mar)." O Senhor Sri Krishna retrucou: "ó Yudhishthira, ó rei dos reis, de bom grado contar-te-ei sobre este grande jejum, conhecido como Vijaya Ekadashi. Quem quer que o observe certamente obtém sucesso tanto nesta vida como na seguinte. Todos pecados de quem jejua neste Ekadashi e ouve suas sublimes glórias são erradicados.

 

Narada Muni certa vez perguntou ao Senhor Brahma, que se senta num lótus, sobre Vijaya Ekadashi. Narada disse: "ó melhor dos semideuses, tenha a bondade de me contar que mérito se pode obter por observar fielmente Vijaya Ekadashi."

 

O grande pai de Narada respondeu: "Meu querido filho, este mais antigo dos dias para jejuar é puro, e nulifica todos pecados. Nunca revelei isto a ninguém até hoje, mas tu consegues compreender além de qualquer dúvida que este Ekadashi concede o resultado indicado por seu nome. (vijaya significa "vitória")

 

Quando o Senhor Rama foi exilado para a floresta por quatorze anos, Ele, a deusa Sita e Seu divino irmão Lakshmana permaneceram em Pancavati como mendicantes. Sita foi raptada por Ravana, e Rama aparentemente ficou desorientado pelo sofrimento. Enquanto procurava por Sua amada consorte, o Senhor encontrou o moribundo Jatayu e depois disso matou Seu inimigo Kabandha. O grande devoto-abutre Jatayu retornou a Vaikuntha após contar para Rama como Sua querida Sita fora abduzida por Ravana.

 

Mais tarde, Rama e Sugriva, o rei dos macacos, ficaram amigos. (1) Juntos reuniram um grande exército de macacos e ursos e enviaram Hanumanji a Sri Lanka, onde foi capaz de ver Janaki, Sita-devi, num jardim de ashokas. Transmitiu a mensagem de Rama para Ela e então retornou a Rama com o recado Dela para Ele, assim prestando grande serviço ao Senhor Supremo.

 

Com a ajuda de Sugriva, o Senhor Rama proseguiu até Sri Lanka. Ao chegar na beira do oceano com o exército de macacos, Ele pode entender que a água era incomumente profunda. Assim disse para Lakshmana: "ó filho de Sumitra, como poderemos acumular suficiente mérito para conseguir atravessar este vasto oceano, a morada insondável de Varuna? Não consigo ver nenhuma maneira fácil para atravessá-lo, assim cheio de tubaröes e outros peixes ferozes."

 

Lakshmana respondeu: "ó melhor de todos seres, ó origem de todos deuses, ó personalidade primordial, o grande sábio Bakadalbhya vive numa ilha a apenas quatro milhas daqui. ó Raghava, ele viu muitos Brahmas ir e vir, de tão idoso e sábio que é. Vamos perguntar a ele como Nós poderemos alcançar Nossa meta em segurança."

 

Assim Rama e Lakshmana seguiram até o humilde ashrama do incomparável Bakadalbhya Muni. Aproximando-Se dele, os dois Senhores prestaram Suas respeitosas reverências como se fosse um segundo Vishnu. Bakadalbhya podia compreender, entretanto, que Rama na verdade era a Suprema Personalidade de Deus, que por Suas próprias razöes havia aparecido na terra como um ser humano.

 

"ó Rama" disse Bakadalbhya, "ó melhor dos seres humanos, porque vieste a minha humilde morada?"

 

O Senhor respondeu: "ó grande brahmana duas-vezes nascido, vim aqui até a beira do oceano com Minha falange de macacos e ursos a fim de atravessar o mar e conquistar Lanka e sua horda de demônios. ó maior dos sábios, por favor seja misericordioso para Comigo e diga-Me como posso atravessar este vasto oceano. É por isso que vim até aqui hoje."

 

O sábio disse: "ó Senhor Rama, contarei sobre o mais exaltado de todos jejuns, que se observado certamente fárá com que conquistes Ravana e sejas eternamente glorificado. Tenha a bondade de ouvir com plena atenção.

 

No dia antes de Ekadashi, fabrique um pote d'água de ouro ou prata, ou até cobre. Mesmo barro servirá se estes metais não estiverem disponíveis. Encha o pote com água pura e então o decore bem com folhas de manga. Cubra-o e coloque-o próximo a um altar sagrado sobre um montículo de sete grãos. (2) Agora tome Teu banho matinal, decore o pote d'água com guirlandas de flores e pasta de sândalo, e na tampa côncava em cima do pote, coloque cevada, romã, e côco. Agora com grande amor e devoção adore a Deidade no pote d'água e ofereça-Lhe incenso, pasta de sândalo, flores, uma lamparina de ghee, e um prato de alimento suntuoso. Permaneça acordado naquela noite junto a este pote sagrado. Em cima da tampa cheia de cevada, etc. coloque uma murti dourada do Senhor Narayana.

 

Quando Ekadashi alvorecer, toma Teu banho matinal e então decore o pote d'água com fina pasta de sândalo e guirlandas. Então adore o pote com incenso de primeira qualidade, pasta de sândalo, uma lamparina de ghee, e também coloque devotadamente muitos tipos de alimentos cozidos, romã, e côco diante do pote d'água. Então permaneça acordado a noite inteira.

 

Quando Dvadashi alvorecer, leve o pote d'água até a margem de um rio sagrado, ou até mesmo para a beira de uma pequena lagoa. Após adorá-lo devidamente, ó Rei dos reis, ofereça-o com todos ingredientes antemencionados a um brahmana perito na ciência védica. Se Tu e Teus comandantes militares observarem Vijaya Ekadashi desta maneira, certamente sereis vitoriosos de qualquer maneira."

 

O Senhor Ramachandra, a Suprema Personalidade de Deus, fez assim como Bakadalbhya Muni instruira, e assim conquistou todas forças demoníacas. Similarmente, qualquer um que observe Vijaya Ekadashi desta maneira será sempre vitorioso neste mundo mortal, e após deixar este mundo irá residir para sempre no reino de Deus.

 

ó Narada, meu filho, por esta história podes compreender porque se deve observar este jejum de Ekadashi corretamente, seguindo estritamente as regras e regulaçöes. Este jejum é suficientemente poderoso para erradicar todas nossas reaçöes pecaminosas, até as mais abomináveis."

 

Sri Krishna concluiu: "ó Yudhishthira, quem mais bela moça na terra, e tanto o deus do sol como Indra se enamoraram dela. Um após o outro, Indra e o deus do sol vieram até ela na forma de Gautama e tiveram sua união com ela, e Sugriva e Vali foram o resultado, respectivamente.

 

A princípio, Sugriva e Vali pareciam seres humanos, mas quando Gautama descobriu a infidelidade de sua esposa, irado, lançou ambos meninos no oceano dizendo: "Se não forem meus filhos, que virem macacos!" Assim viraram macacos. Sugriva ajudou seu amigo Rama a encontrar Sita, e em troca Rama ajudou Sugriva a recuperar seu reino de Kishkindha do seu irmão Vali.

 

Com relação ao fato de Gautama possuir uma esposa espetacularmente bela, Chanakya Pandita diz:

 

rnakarta pita shatruh

mata ca vyabhicarini

bharya rupavati shatruh

putra shatruh kupanditah

 

"Neste mundo um homem tem quatro inimigos: um pai que é devedor; uma mãe que é prostituta; uma bela esposa; e um filho que não se interessa pela ciência espiritual." Uma bela esposa é um inimigo porque muitos outros homens serão atraídos por ela.

 

(2) Os sete grãos são cevada, trigo, arroz, milho, grão-de-bico, kukani e dal (ou ervilhas).

 

8 AMALAKI EKADASHI

 

O Rei Mandhata certa vez disse para Vasishtha Muni: "ó grande sábio, por bondade, seja misericordioso para comigo e conta-me sobre um jejum sagrado que me beneficiará eternamente."

 

Vasishtha Muni respondeu: "ó rei, tenha a bondade de ouvir enquanto descrevo o melhor de todos dias de jejum, Amalaki Ekadashi. Aquele que observa fielmente um jejum neste Ekadashi obtém enorme opulência, livra-se dos efeitos de todo tipo de pecados, e obtém liberação. Jejuar neste Ekadashi é mais purificante que doar mil vacas em caridade a um brahmana puro. Portanto por favor me escute atentamente enquanto conto a história do caçador que, embora diariamente ocupado em matar animais inocentes para ganhar a vida, obteve liberação por observar um jejum no Amalaki Ekadashi e seguir as regras e regulaçöes de adoração prescritas.

 

Uma vez havia um reino chamado Vaidisha, onde todos brahmanas, kshatriyas, vaishyas e shudras eram igualmente dotados de conhecimento védico, grande força corpórea, e refinada inteligência. ó leão entre os reis, o reino inteiro estava cheio de sons védicos, nem uma só pessoa era ateísta, e ninguém pecava. O governante deste reino era o Rei Pashabinduka, um membro da dinastia de Soma, a lua. Ele também era conhecido como Citraratha e era muito religioso e veraz. Dizem que o Rei Citraratha tinha a força de dez mil elefantes e que era muito rico e conhecia os seis ramos da sabedoria védica perfeitamente. (1)

 

Durante o reino de Maharaja Citraratha, nem uma só pessoa em seu reino tentou praticar o dharma (dever) de outra, tão perfeitamente ocupados em seus próprios dharmas estavam todos brahmanas, kshatriyas, vaishyas e shudras. Não se viam nem miseráveis nem pobretöes pelo reino afora, e nem havia seca ou inundação. Na verdade, o reino estava livre de doenças, e todos gozavam de boa saúde. As pessoas prestavam serviço devocional amoroso à Suprema Personalidade de Deus, o Senhor Vishnu, assim como fazia o rei, que também prestava serviço especial ao Senhor Shiva. Além do mais, duas vezes por mês todos jejuavam no Ekadashi.

 

Desta maneira, ó melhor dos reis, os cidadãos de Vaidisha viviam muitos e longos anos em grande felicidade e prosperidade. Abandonando todas variedades de religião materialista, dedicavam-se completamente ao serviço amoroso ao Senhor Supremo, Hari.

 

Uma vez, no mês de Phalguna, veio o sagrado jejum de Amalaki Ekadashi junto com Dvadashi. O Rei Citraratha realizou que este jejum em particular concederia benefício especialmente grande, e portanto ele e todos cidadãos de Vaidisha observaram este sagrado Ekadashi mui estritamente, seguindo cuidadosamente todas regras e regulaçöes.

 

Após banhar-se num rio, o rei e todos seus súditos foram ao templo do Senhor Vishnu, onde crescia uma árvore Amalaki. Primeiro o rei e seus principais sábios ofereceram à árvore um pote cheio d'água, bem como um belo dossel, calçados, ouro, diamantes, rubis, pérolas, safiras, e incenso aromático. Então adoraram o Senhor Parashurama com estas oraçöes: "ó Senhor Parashurama, ó filho de Renuka, ó ser que agrada a todos, ó libertador de todos mundos, por bondade venha para baixo desta sagrada árvore Amalaki e aceite nossas humildes reverências." Então oraram à árvore Amalaki: "ó Amalaki, ó filha do Senhor Brahma, tu podes destruir todos tipos de reaçöes pecaminosas. Por favor aceite nossas respeitosas reverências e estas humildes dádivas. ó Amalaki, és na verdade a forma do Brahman, e uma vez foste adorada pelo próprio Senhor Ramachandra. Quem quer que te circumambule portanto imediatamente é libertado de todos seus pecados."

 

Após oferecer estas excelentes oraçöes, o Rei Citraratha e seus súditos permaneceram acordados durante toda a noite, orando e adorando segundo as regulaçöes que governam um sagrado jejum de Ekadashi. Foi durante esta ocasião auspiciosa de jejum e oração que um homem mui irreligioso se aproximou da assembléia, um homem que mantinha a si e a sua família matando animais. Oprimido pela fadiga e pecado, o caçador viu o rei e os cidadãos de Vaidisha observando Amalaki Ekadasi realizando uma vigília a noite toda, jejuando e adorando o Senhor Vishnu no lindo cenário da floresta, que estava brilhantemente iluminada por muitas lâmpadas. O caçador escondeu-se pertinho, desejando saber que seria esta extraordinária cena diante dele. "O que está acontecendo aqui?" pensava. O que viu naquela maravilhosa floresta sob aquela sagrada árvore Amalaki foi a Deidade do Senhor Damodara sendo adorada sobre a asana do pote d'água, e o que ouviu eram devotos cantando cançöes sagradas descrevendo as formas e passatempos transcendentais do Senhor Sri Krishna. Esquecendo-se de si, este ferrenho assassino irreligioso de inocentes aves e animais passou a noite inteira em grande espanto enquanto observava a celebração de Ekadashi e ouvia a glorificação do Senhor.

 

Logo após o alvorecer, o rei e seu séquito real - inclusive os sábios ca corte e todos cidadãos - completaram sua observância de Ekadashi e retornaram à cidade de Vaidisha. O caçador então retornou a sua cabana e comeu alegre sua refeição. No devido tempo o caçador morreu, porém o mérito que acumulara por jejuar no Amalaki Ekadashi e ouvir a glorificação da Suprema Personalidade de Deus, bem como por ser forçado a ficar acordado a noite toda, tornaram-no qualificado a renascer como um grande rei com muitas quadrigas, elefantes, cavalos, e soldados. Seu nome era Vasuratha, o filho do Rei Viduratha, e governava o reino de Jayanti.

 

O Rei Vasuratha era forte e destemido, refulgente como o sol, e tão belo como a lua. Em força era como Vishnu, e em matéria de perdão, tal como a própria terra. Muito caridoso e sempre veraz, o Rei Vasuratha sempre prestava serviço devocional amoroso ao Supremo Senhor Sri Vishnu. Por isso, tornou-se muito bem versado no conhecimento védico. Sempre ativo nos assuntos do estado, gostava de cuidar muito bem de seus súditos, como se fossem seus próprios filhos. Não gostava que ninguém fosse orgulhoso e costumava esmagá-lo quando o via. Realizou muitos tipos de sacrifícios, e sempre certificava-se que os necessitados de seu reino recebessem suficiente caridade.

 

Certo dia, enquanto caçava na selva, o Rei Vasuratha desgarrou-se da trilha e perdeu o caminho. Vagando durante algum tempo e eventualmente ficando cansado, fez uma pausa sob uma árvore e, usando seus braços como travesseiros, caiu no sono. Enquanto dormia, selvagens bárbaros de uma tribo encontraram-no e, lembrando de sua inimizade já de longa data para com o rei, começaram a discutir entre si várias maneiras de matá-lo. "É porque ele matou nossos pais, mães, cunhados, netos, sobrinhos e tios que somos forçados a vagar sem rumo como um bando de loucos." Dizendo isto, prepararam-se para matar o Rei Vasuratha com várias armas, inclusive lanças, espadas, flechas e cordas místicas.

 

Mas nenhuma destas armas mortais conseguia nem mesmo tocar o rei adormecido, e em breve a incivilizada tribo comedora-de-cães ficou temerosa. O medo consumiu-lhes a força, e logo perderam o pouco de inteligência que tinham e ficaram quase inconscientes pela desorientação e fraqueza. De repente uma linda mulher apareceu do corpo do rei, assustando os aborígenes. Decorada com muitos ornamentos, emitindo uma fragrância maravilhosa, usando uma excelente guirlanda em redor do pescoço, suas sobrancelhas franzidas numa expressão de ira feroz, e seus fogosos olhos vermelhos luzindo, parecia a própria morte personificada. Com sua chamejante chakra rapidamente ela matou todos caçadores tribais, que haviam tentado assassinar o rei adormecido.

 

Bem naquele momento o rei acordou, e vendo toda tribo morta ao redor dele, ficou espantado. Perguntava-se: "Esses são todos grandes inimigos meus! Quem os matou tão violentamente? Quem é meu grande benfeitor?"

 

Nesse mesmo momento ouviu uma voz do céu: "Perguntas quem te ajudou. Bem, quem é aquela pessoa que só ela pode auxiliar qualquer um atormentado? Não é outro senão Sri Keshava, a Suprema Personalidade de Deus, Aquele que salva todos que se refugiam Nele sem qualquer motivo egoísta."

 

Ao ouvir estas palavras, o Rei Vasuratha foi tomado de amor pela Suprema Personalidade de Deus. Retornou a sua capital e governou ali como um segundo Indra, sem quaisquer obstáculos.

 

"Portanto, ó Rei Mandhata" o venerável Vasishtha Muni concluiu, "quem observa o sagrado Amalaki Ekadashi indubitavelmente alcançará a suprema morada do Senhor Vishnu, tão grande é o mérito religioso obtido por observar este mais sagrado dia de jejum."

 

Assim termina a narrativa das glórias do Phalguna-sukla Ekadashi ou Amalaki Ekadashi, do Brahmanda Purana.

 

Notas:

 

(1) Os seis ramos da sabedoria védica são: 1. O sistema Karma-mimamsa de Jaimini; 2. O sistema Sankhya do Senhor Kapila, filho de Devahuti; 3. Filosofia Nyaya de Gautama e Kamada; 4. Filosofia Mayavada de Ashtavakra; 5. Yoga-sutra de Patanjali, e 6. Filosofia Bhagavata de Srila Vyasadeva.


9 PAPAMOCANI EKADASI

 

Yudhisthira Maharaja disse: "ó Senhor Supremo, ouvi de Ti a explicação sobre Amalaki Ekadasi, que ocorre durante a quinzena do mês Phalguna (fev/mar), e agora desejo ouvir sobre o Ekadasi que ocorre durante a quinzena obscura do mês Caitra (mar/abr). Qual é seu nome, ó Senhor, e que resultados pode-se obter por praticá-lo?"

 

A Suprema Personalidade de Deus, o Senhor Sri Krishna, replicou: "ó melhor dos reis, para benefício de todos com prazer descrever-te-ei as glórias desse Ekadasi, que é conhecido como Papamocani. A história desse Ekadasi certa vez foi narrada ao imperador Mandhata por Lomasa Rishi. O Rei Mandhata dirigiu-se ao rishi: "ó grande sábio, para beneficiar o povo todo, por favor conte-me o nome do Ekadasi que ocorre durante a quinzena obscura do mês de Caitra, e por favor explique o processo para observá-lo. E ainda, por favor descreva os benefícios que se aufere por observar este Ekadasi."

 

Lomasa Rishi replicou: "O Ekadasi que ocorre durante a metade obscura do mês de Caitra se chama Papamocani Ekadasi. Para os devotos fiéis remove as influências de fantasmas e demônios. ó leão dentre os homens, este Ekadasi também confere as oito perfeiçöes da vida, realiza todo tipo de desejos, purifica nossa vida de todas reaçöes pecaminosas, e torna a pessoa perfeitamente virtuosa.

 

Agora por favor ouça o relato histórico referente a esse Ekadasi e Citraratha, o chefe dos Gandharvas (músicos celestiais). Durante a estação primaveril, na companhia de dançarinas, Citraratha certa vez acho uma linda floresta cheia de grande variedade de flores desbrochando. Ali ele e as garotas juntaram-se a outros Gandharvas e muitos Kinnaras, além do próprio Senhor Indra, o rei do céu, que estava desfrutando de uma visita por lá. Todos acharam que não havia jardim melhor que essa floresta. Muitos sábios também estavam presentes, realizando suas austeridades e penitências. Os semideuses particularmente gostavam de visitar esse jardim celestial durante os meses de Caitra e Vaisakha (abr/mai).

 

Um grande sábio chamado Medhavi residia ali naquela floresta, e as dançarinas muito atraentes sempre tentavam seduzí-lo. Certa moça famosa em particular, chamada Manjughosha, concebia muitas maneiras de atrair o exaltado muni, porém por grande respeito pelo sábio e medo de seu poder, que fora obtido durante muitos e muitos anos de ascese, ela não se aproximava muito dele. Num lugar a duas milhas do sábio, armou uma barraca e começou a cantar muito docemente enquanto tocava uma tamboura. O próprio Cupido ficou excitado quando viu e ouviu-a tocar tão bem e sentiu a fragância de seu unguento de pasta de sândalo. Lembrou de sua própria experiência mal-afortunada com o Senhor Shiva e decidiu se vingar seduzindo Medhavi. (1)

 

Usando as sombrancelhas de Manjughosha como arco, seus olhares como corda, e seus olhos como flechas, e seus seios como mira, Cupido aproximou-se de Medhavi a fim de tentá-lo a quebrar seu transe e seus votos. Em outras palavras, Cupido ocupou Manjughosha como sua assistente, e quando esta olhou para aquele jovem sábio poderoso e atraente, ela também ficou agitada pela luxúria. Vendo que ele era altamente inteligente e erudito, vestido que estava com um cordão de brahmana branco e limpo drapeado sobre seu ombro, segurando o bastão de sannyasi, e atraentemente sentado no ashrama de Cyavana Rishi, Manjughosha veio para diante dele.

 

Começou a cantar sedutoramente, e os sininhos de seu cinto e das tornozeleiras, junto com os braceletes em seus pulsos, produziam uma sinfonia musical encantadora. O sábio Medhavi ficou encantado. Compreendeu que essa bela jovem desejava unir-se com ele, e naquele instante Cupido aumentou sua atração por Manjughosha ao soltar suas poderosas armas de sabor, toque, visão, aroma e som.

 

Lentamente Manjughosha aproximou-se de Medhavi, seus movimentos corpóreos e doces olhares atraindo-o. Graciosamente depositou sua tamboura e abraçou o sábio com seus dois braços, assim como uma liana se enrosca ao redor de uma árvore forte. Cativado, Medhavi abandonou sua meditação e decidiu desfrutar com ela - e instantâneamente sua pureza de coração e mente abandonaram-no. Esquecendo-se da diferença entre a noite e o dia, foi com ela para desfrutar durante longo, longo tempo. (2)

 

Vendo que a santidade do jovem yogui tinha se erodido seriamente, Manjughosha decidiu abandoná-lo e retornar a casa. Disse ela: "ó grande sábio, por favor permita-me retornar para casa."

 

Medhavi retrucou: "Mas apenas chegaste, ó lindeza, por favor fica comigo pelo menos até amanhã."

 

Temerosa dos poderes yoguicos do sábio, Manjughosha ficou com Medhavi durante precisamente cinquenta e sete anos, nove meses, e três dias, mas para Medhavi todo esse tempo parecia como um momento. Novamente ela perguntou-lhe: "Por favor permita-me ir embora."

 

Medhavi respondeu: "ó querida, ouça-me. Fique por mais uma noite apenas, e então poderá ir embora amanhã de manhã. Só fique até depois que eu tiver realizado meus deveres matinais e cantado o sagrado Gayatri mantra. Por favor espera até lá."

 

Manjughosha ainda estava temerosa pelos grandes poderes yoguicos do sábio, mas forçou um sorriso e disse: "Quanto tempo levará para terminar seus rituais e hinos matinais? Por favor seja misericordioso e pense em todo tempo que já passaste comigo."

 

O sábio refletiu nos anos em que estivera com Manjughosha e então falou muito espantado: "Pudera, passei mais que cinquenta e sete anos contigo!" Seus olhos ficaram vermelhos e começaram a emanar faíscas. Agora ele enxergava Manjughosha como a morte personificada e destruidora de sua vida espiritual. "Mulher velhaca! Transformaste todos resultados duramente obtidos de minhas austeridades em cinzas!" Tremendo de ira, amaldicoou Manjughosha: "ó pecaminosa, ó degradada de coração de pedra! Só conheces o pecado! Que todos destinos terríveis sejam para ti! ó mulher velhaca, te amaldiçôo a te tornares um malvado duende pisaca!"

 

Amaldiçoada pelo sábio Medhavi, a bela Manjughosha humildemente implorou: "ó melhor dos brahmanas, por favor seja misericordioso para comigo e revogue minha maldição! ó grande sábio, dizem que a associação com devotos puros dá resultados imediatos mas suas maldiçöes só tem efeito após sete dias. Estive contigo durante cinquenta e sete anos. ó mestre, por favor seja bondoso para comigo!"

 

Medhavi Muni respondeu: "ó gentil senhora, que poderei fazer? Destruíste todas minhas austeridades. Mas embora tenhas realizado esse ato pecaminoso, vou contar-te uma maneira de libertar-te de minha ira. Na quinzena obscura do mês Caitra há um Ekadasi totalmente auspicioso que remove todos nossos pecados. Seu nome é Papamocani Ekadasi, ó bela, e quem quer que jejue nesse sagrado dia se torna completamente livre de ter de renascer em qualquer das formas demoníacas."

 

Com essas palavras, o sábio partiu imediatamente para o ashram de seu pai. Vendo-o entrar no eremitério, Cyavana Muni disse: "ó filho, por ter agido desregradamente desperdiçaste a fortuna de tuas penitências e austeridades."

 

Medhavi replicou: "ó Pai, bondosamente revele que expiação devo realizar para remover esse pecado obnóxio que incorri por associar-me na privacidade com a dançarina Manjughosha."

 

Cyavana Muni respondeu: "Querido filho, deves jejuar no Papamocani Ekadasi, que ocorre durante a quinzena obscura do mês de Caitra. Ele erradica todos pecados, não importa quão graves possam ser."

 

Medhavi seguiu o conselho de seu pai e jejuou no Papamocani Ekadasi. Assim todos seus pecados foram destruídos e ele se encheu de excelente mérito novamente. Similarmente, Manjughosha observou o mesmo jejum e ficou livre da maldição de virar duende. Ascendendo novamente às esferas celestiais, também ela retornou a sua posição anterior."

 

Lomasa Rishi continuou: "Assim, ó rei, o grande benefício de jejuar no Papamocani Ekadasi é que quem assim fizer com fé e devoção, terá todos seus pecados completamente destruídos."

 

Sri Krishna concluiu: "ó Rei Yudhisthira, quem quer que ler ou ouvir sobre Papamocani Ekadasi obtém o mesmo mérito que receberia se doasse mil vacas como caridade, e também nulifica as reaçöes pecaminosas que possa ter acumulado por matar um brahmana, matar um embrião por meio de aborto, beber álcool, ou fazer sexo com a esposa do guru. Tal é o incalculável benefício de se observar corretamente esse sagrado dia de Papamocani Ekadasi, que Me é tão caro e é tão cheio de mérito.

 

Assim termina a narrativa das glórias de Caitra-krsna Ekadasi, ou Papamocani Ekadasi, conforme aparece no Bhavisya-uttara Purana.

 

Notas:

 

(1) Depois que o Senhor Shiva perdera sua querida esposa Sati na arena sacrificial de Prajapati Daksha, Shiva destruiu a arena inteira. Então trouxe de volta à vida seu sogro Daksha, dando-lhe uma cabeça de bode, e finalmente sentou-se para meditar durante sessenta mil anos. O Senhor Brahma, entretanto, arranjou para que Kamadeva (Cupido) viesse e interrompesse a meditação de Shiva. Usando suas flechas de som, sabor, toque, visão e aroma, Cupido atacou Shiva, que afinal acordou de seu transe. Ficou tão irado por ter sido perturbado que instantâneamente queimou Cupido até virar cinzas, com apenas um olhar de seu terceiro olho.

 

(2) Associação feminina é tão poderosa que um homem esquece do tempo, energia, bens e mesmo da própria identidade. Como se fala no Niti-shastra: striya caritram purusasya bhabhyam daivo vijanati kuto manusyah - "Mesmo os semideuses não conseguem prever o comportamento de uma mulher. Tampouco conseguem compreender a fortuna de um homem ou como esta determinará seu destino."

Segundo Yajnavalkya Muni: "Uma (pessoa celibatária) que deseja vida espiritual deve abandonar toda associação com mulheres, incluindo pensar nelas, vê-las, falar com elas em local solitário, aceitar serviço delas, ou manter relaçöes sexuais com elas."

 

10 KAMADA EKADASHI

 

Srila Suta Goswami disse: "ó sábios, permitam que eu ofereça minhas humildes e respeitosas reverências ao Supremo Senhor Hari, Bhagavan Sri Krishna, o filho de Devaki e Vasudeva, por cuja misericórdia posso descrever o dia de jejum que remove todos tipos de pecados. Foi para o devotado Yudhishthira que o Senhor Krishna glorificou os vinte e quatro Ekadashis primários, que destroem pecado, e agora vou recontar uma dessas narrativas para vós. Grandes sábios eruditos selecionaram estas vinte e quatro narrativas dos dezoito Puranas, pois são realmente sublimes.

 

Yudhishthira Maharaja disse: "ó Senhor Krishna, ó Vasudeva, por favor aceite minhas humildes reverências. Por favor descreva para mim o Ekadashi que ocorre durante a parte iluminada do mês de Chaitra (mar/abr). Qual é seu nome e quais são suas glórias?"

 

O Senhor Sri Krishna respondeu: "ó Yudhishthira, por favor ouça-Me atentamente enquanto relato a antiga história deste sagrado Ekadashi, uma história que Vasishtha Muni certa vez relatou para o Rei Dilipa, o bisavô do Senhor Ramachandra.

 

O Rei Dilipa perguntou ao grande sábio Vasishtha: brahmana sábio, desejo ouvir sobre o Ekadashi que vem durante a parte iluminada do mês de Caitra. Por favor descreva-o para mim."

 

Vasishtha Muni respondeu: "ó rei, tua indagação é gloriosa. De bom grado contarei o que desejas saber. O Ekadashi que ocorre durante a quinzena clara de Caitra é chamado Kamada Ekadashi. Ele consome todos pecados, assim como um incêndio florestal consome um suprimento de lenha seca. É muito purificante, e confere o mais alto mérito a quem o observa fielmente. ó rei, agora ouça uma antiga história, que é tão meritória que remove todos nossos pecados simplesmente por ser ouvida.

 

Uma vez, há muito tempo atrás, existia uma cidade-estado chamada Ratnapura, que era decorada por ouro e jóias e na qual serpentes de afiadas presas desfrutavam da intoxicação. O Rei Pundarika era o governante deste mais belo reino, que contava com muitos Gandharvas, Kinnaras, e Apsaras entre seus cidadãos.

 

Entre os Gandharvas havia Lalita e sua esposa Lalitã, que era uma dançarina especialmente maravilhosa. Estes dois tinham intensa atração um pelo outro, e seu lar era cheio de grande riqueza e finos alimentos. Lalitã amava seu marido muito, e por sua vez ele também constantemente pensava nela em seu coração.

 

Uma vez, na corte do Rei Pundarika, muitos Gandharvas estavam dançando e Lalita estava cantando sozinho, sem sua esposa. Não pode evitar de pensar nela enquanto cantava, e por essa distração perdeu-se na métrica e melodia da canção. De fato, Lalita cantou indevidamente o final de sua canção, e uma das serpentes invejosas que estava presente na corte do rei queixou-se ao rei que Lalita estava absorto em pensar na sua esposa em vez de no seu soberano. O rei ficou furioso ao ouvir isso, e seus olhos ficaram vermelhos de raiva. De repente ele berrou: "ó tolo valete, porque estavas pensando luxuriosamente numa mulher em vez de pensar reverentemente em teu rei enquanto realizavas teus deveres reais, eu te amaldiçôo imediatamente a virares um canibal!"

 

ó rei, Lalita imediatamente virou um temível canibal, um grande demônio comedor de gente, cuja aparência aterrorizava todo mundo. Seus braços tinham oito milhas de comprimento, sua boca era grande como uma enorme caverna, seus olhos eram imponentes como o sol e a lua, suas narinas assemelhavam-se a enormes fossos na terra, seu pescoço era uma verdadeira montanha, seus quadris tinham quatro milhas de largura, e seu corpo gigantesco media sessenta e quatro milhas de altura. Assim o pobre Lalita, o amoroso cantor Gandharva, teve que sofrer a reação de sua ofensa contra o Rei Pundarika.

 

Vendo seu marido sofrendo como um horrível canibal, Lalitã foi tomada de tristeza. Pensava: "Agora que meu querido marido está sofrendo os efeitos da maldição do rei, que será de mim? Que devo fazer? Para onde devo ir? Desse modo Lalitã lamentava dia e noite. Em vez de gozar da vida como uma esposa de Gandharva, ela tinha que vagar por toda selva densa com seu monstruoso marido, que caíra completamente sob o encanto da maldição do rei e estava inteiramente ocupado em terríveis atividades pecaminosas. Ele perambulava vacilante pelas regiöes inóspitas, um ex-semideus Gandharva belo, agora reduzido a um comportamento fantasmagórico de comedor de gente. Totalmente transtornada ao ver seu querido marido sofrer tanto em sua horrorosa condição, Lalitã começou a chorar enquanto seguia sua louca jornada.

 

Por boa fortuna, entretanto, Lalitã em certo dia encontrou o sábio Shringi. Estava sentado num pico da famosa Colina Vindhyacala. Aproximando-se dele, imediatamente ela ofereceu ao asceta suas respeitosas reverências. O sábio notou-a curvando-se diante dele e disse: "ó mais bela, quem és? De quem és filha, e porque vieste até aqui? Por favor conta-me tudo de verdade."

 

Lalitã respondeu: "ó grande sábio, sou filha do grande Gandharva Viradhanva, e meu nome é Lalitã. Vago pelas florestas e planícies com meu querido marido, que o Rei Pundarika amaldiçôou a se tornar um demônio comedor de gente. ó brahmana, estou grandemente aflita por ver sua forma feroz e atividades terrívelmente pecaminosas. ó mestre, por favor conta-me como poderei realizar algum ato de expiação em prol de meu marido. Que ato piedoso poderei fazer para libertá-lo de sua forma demoníaca, ó melhor dos brahmanas?"

 

O sábio respondeu: "ó donzela celestial, existe um Ekadashi chamado Kamada que ocorre na quinzena luminosa do mês de Caitra. Está chegando em breve. Se observares este jejum de Ekadashi de acordo com suas regras e regulaçöes e deres o mérito que assim acumulares a teu marido, ele será liberto da maldição de imediato." Lalitã ficou muito contente ao ouvir estas palavras do sábio.

 

Lalitã observou fielmente o jejum de Kamada Ekadashi segundo as instruçöes do sábio Shringi, e no Dvadashi el lo cantor celestial adornado com muitos ornamentos lindos. Agora, com sua esposa Lalitã, ele podia desfrutar de mais opulência que antes. Tudo isso se dera pelo poder e glória do Kamada Ekadashi. Afinal o casal Gandharva embarcou num aeroplano celestial e ascendeu ao céu."

 

O Senhor Sri Krishna continuou: "ó Yudhishthira, melhor dos reis, quem quer que ouça esta maravilhosa narrativa deve certamente observar o sagrado Kamada Ekadashi ao melhor de sua capacidade, por conceder mérito tão grande ao devoto fiel. Portanto descrevi suas glórias para ti em benefício de toda humanidade. Não há Ekadashi melhor que Kamada Ekadashi. Ele pode erradicar até mesmo o pecado de matar um brahmana, e também nulifica maldiçöes demoníacas e limpa a consciência. Em todos três mundos, entre as entidades móveis e imóveis, não existe dia melhor."

 

Assim termina a narrativa das glórias de Caitra-sukla Ekadasi, ou Kamada Ekadasi, conforme aparece no Varaha Purana.

 

11 VARUTHINI EKADASHI

 

Yudhishthira Maharaja disse: "ó Vasudeva, ofereço minhas mais humildes reverências a Ti. Por favor agora descreva o Ekadashi da quinzena obscura do mês de Vaisakha (abr/mai), inclusive seus méritos e influência específicos." O Senhor Sri Krishna respondeu: "ó rei, neste mundo e no próximo, o mais auspicioso e magnânimo Ekadashi é Varuthini Ekadashi, que ocorre durante a quinzena obscura do mês de Vaisakha. Quem quer que observe um jejum completo neste dia sagrado tem seus pecados completamente removidos, obtém felicidade contínua, e consegue toda boa fortuna. Jejuar no Varuthini Ekadashi torna afortunada até mesmo uma mulher desafortunada. Este Ekadashi concede a qualquer um que o observe, o desfrute material nesta vida e liberação após a morte. Destrói os pecados de todos e salva as pessoas das misérias do renascimento.

 

Por observar este Ekadashi devidamente, o Rei Mandhata foi liberado. Muitos outros reis também se beneficiaram por observá-lo - reis como Maharaja Dhundhumara, na dinastia Iksvaku, que se tornou livre da lepra advinda de uma maldição que o Senhor Shiva lhe impusera como punição. Qualquer mérito que se obtenha por realizar austeridades e penitências durante dez mil anos é alcançado por uma pessoa que observa Varuthini Ekadashi. O mérito obtido por doar grande quantidade de ouro durante um eclipse solar em Kurukshetra é acumulado por quem observa este jejum de Ekadashi. De fato, aquele que observa este único Ekadashi com amor e devoção certamente obtém suas metas nesta vida e na próxima. Em resumo, este Ekadashi é puro e muito vivificante e é um destruidor de todos pecados.

 

Melhor que dar cavalos em caridade é dar elefantes, e melhor que dar elefantes é dar terra. Mas melhor que dar terra é dar sementes de gergelim, e melhor que dar isto é dar ouro. Ainda melhor que dar ouro é dar grãos alimentícios, pois todos antepassados, semideuses, e seres humanos ficam satisfeitos por comer grãos. Assim não há melhor caridade que esta no passado, presente, ou futuro. (1) Contudo sábios eruditos tem declarado que dar uma jovem em casamento a uma pessoa digna é igual a dar grãos alimentícios. Além do mais, Sri Krishna, a Suprema Personalidade de Deus, disse que dar vacas em caridade é igual até mesmo a dar grãos alimentícios. Ainda melhor que todas essas caridades é ensinar conhecimento espiritual aos ignorantes. Contudo todos méritos que se pode obter por realizar todos esses atos de caridade são obtidos por alguém que jejua no Varuthini Ekadashi.

 

Quem vive dos bens de suas filhas sofre uma condição infernal até a inundação do universo inteiro, ó Bharata. Portanto devemos ter cuidado especial em não usar os bens de nossa filha. ó melhor dos reis, qualquer chefe-de-família que pegue os bens de sua filha por cobiça, que tenta vender sua filha ou aceita dinheiro do homem a quem deu sua filha em casamento - tal chefe-de-família se torna um reles gato em sua próxima vida. Portanto é dito que quem quer que, como sagrado ato de caridade, dá em casamento uma donzela decorada com vários ornamentos, e que também dá um dote com ela, obtém mérito que não pode ser descrito nem por Citragupta, o principal secretário de Yamaraja nos planetas celestiais. Este mesmo mérito, contudo, pode facilmente ser obtido por quem jejua no Varuthini Ekadashi.

 

As seguintes coisas devem ser deixadas no Dashami, o dia antes do Ekadashi: comer em pratos de metal de sino; comer qualquer tipo de urad dal, comer lentilhas vermelhas, grão-de-bico, kondo (2), espinafre, mel, comer em casa de outrem, comer mais que uma vez, e sexo. No próprio Ekadashi se deve abandonar o seguinte: jogatina, esportes, dormir durante o dia, noz de betel e sua folha, escovar os dentes, espalhar rumores, encontrar erros, falar com os espiritualmente caídos, ira e mentir. No Dvadashi, o dia após Ekadashi, se deve deixar o seguinte: comer em pratos de metal de sino, comer urad dal, lentilhas vermelhas, ou mel, comer mais que uma vez, sexo, barbear-se, passar óleo no corpo, e comer na casa de outrem."

 

O Senhor Sri Krishna continuou: "Quem quer que observe Varuthini Ekadashi desta maneira se torna livre de todas reaçöes pecaminosas e retorna para a morada espiritual eterna. Quem adora o Senhor Janardana neste Ekadashi ficando acordado noite afora, também se torna livre de todos seus pecados e obtém a morada espiritual. Portanto, ó rei, aquele que tem medo de seus pecados e suas reaçöes concomitantes, e portanto da própria morte, deve observar Varuthini Ekadashi jejuando mui estritamente. Finalmente, ó nobre Yudhishthira, aquele que ouve ou lê esta glorificação do sagrado Varuthini Ekadashi, obtém o mérito alcançado por doar mil vacas em caridade, e afinal retorna ao lar, a morada do Senhor Vishnu."

 

Assim termina a narrativa das glórias de Vaisakha-krsna Ekadasi, ou Varuthini Ekadasi, do Bhavisya-uttara Purana.

 

Notas:

 

(1) Doar grãos em caridade é muito auspicioso. Certa vez, Yudhishthira Maharaja perguntou ao Senhor Sri Krishna: "ó meu Senhor, alguém pode ir para o céu sem realizar sacrifício ou submeter-se a austeridade?" O Senhor Krishna respondeu"

 

annadau jaladas caiva

aturas ca cikitsakah

trividham svargam ayati

vina yajnena bharatah

 

"ó filho de Bharata, quem quer que dê grãos alimentícios, água potável, ou remédio aos necessitados, vai para o céu sem realizar qualquer sacrifício ou submeter-se a qualquer austeridade." (Mahabharata)

 

Também, Krishna declara no Bhagavad-gita 3.14: annad bhavanti bhutani: "Todos seres subsistem de grãos alimentícios". Portanto a dádiva de grãos alimentícios é dito ser a caridade máxima. Além do mais, se o alimento é prasadam, comestíveis santificados preparados para e oferecidos ao Senhor Krishna com devoção, então isto confere ao recebedor liberação deste mundo material.

 

2. Kondo é um grão comido primariamente pelas pessoas pobres. Parece semente de papoula.

 

12 MOHINI EKADASHI

 

Yudhishthira Maharaja disse: "ó Janardana, qual é o nome do Ekadashi que ocorre durante a quinzena clara do mês de Vaisakha (abr/mai)? Qual é o processo para observá-lo corretamente? Tenha a bondade de narrar tudo isso para mim."

 

O Senhor Sri Krishna respondeu: "ó abençoado filho de Dharma, o que Vasishtha Muni certa vez falou para o Senhor Ramachandra agora irei descrever para ti. Por favor ouça-Me atentamente.

 

O Senhor Ramachandra perguntou a Vasishtha Muni: "ó grande sábio, gostaria de ouvir sobre o melhor de todos dias de jejum - aquele dia que destrói todos tipos de pecado e sofrimento. Sofri tempo bastante em separação de Minha querida Sita, e assim desejo ouvir de ti sobre como Meu sofrimento pode ser terminado."

 

O sábio Vasishtha respondeu: "ó Senhor Rama, cuja inteligência é tão aguda, simplesmente por lembrar de Teu nome se pode atravessar o oceano deste mundo material. Perguntaste-me a fim de beneficiar toda humanidade e realizar os desejos de todos. Agora descreverei aquele dia de jejum que purifica o mundo inteiro.

 

ó Rama, aquele dia é Vaisakha-sukla Ekadashi, que cai no Dvadashi. Ele remove todos pecados e é famoso como Mohini Ekadashi. (3) Em verdade, ó Rama, o mérito deste Ekadashi liberta da rede da ilusão a alma afortunada que o observa. Portanto, se quiseres aliviar Teu sofrimento, observa este auspicioso Ekadashi perfeitamente, pois ele remove todos obstáculos do nosso caminho e alivia as maiores misérias. Tenha a bondade de ouvir enquanto descrevo suas glórias, porque até para quem apenas ouve sobre este auspicioso Ekadashi os maiores pecados são nulificados.

 

Nas margens do Rio Sarasvati uma vez havia uma linda cidade chamada Bhadravati, que era governada pelo Rei Dyutiman. ó Rama, aquele rei constante, veraz, e altamente inteligente nascera na dinastia da lua. Em seu reino havia um mercador chamado Dhanapala, que possuia grande riqueza em grãos alimentícios e dinheiro. Era também muito piedoso. Dhanapala providenciou para que fossem escavados lagos, construidas arenas sacrificiais, e belos jardins cultivados para o benefício de todos cidadãos de Bhadravati. Era um excelente devoto de Vishnu e tinha cinco filhos: Sumana, Dyutiman, Medhavi, Sukrti, e Dhrshtabuddhi.

 

Infelizmente, seu filho Dhrshtabuddhi sempre se ocupava em atividades muito pecaminosas, tais como dormir com prostitutas e se associar com pessoas degradadas. Desfrutava de sexo ilícito, jogatina, e muitas outras variedades de gratificação sensorial. Desrespeitava os semideuses, brahmanas, antepassados e outros anciãos, e os hóspedes da família. O malévolo Dhrshtabuddhi gastou a fortuna do pai indiscriminadamente, sempre banqueteando-se com alimentos intocáveis e bebendo vinho em excesso.

 

Certo dia Dhanapala chutou Dhrshtabhuddhi para fora de casa depois de vê-lo andando pela rua de braço dado com uma prostituta. Desde então todos parentes de Dhrshtabuddhi eram altamente criticos sobre ele e mantinham distância dele. Depois que havia vendido seus ornamentos e se viu em necessidade, as prostitutas também o abandonaram e insultaram devido a sua pobreza.

 

Dhrshtabuddhi estava agora cheio de ansiedade, e também com fome. Pensou: "Que devo fazer? Para onde devo ir? Como poderei me manter?" Então ele começou a roubar. Os guardas do rei prenderam-no, porém quando souberam que seu pai era o famoso Dhanapala, soltaram-no. Foi pego e solto muitas vezes. Mas afinal o mal-orientado Dhrshtabuddhi foi preso, algemado e depois surrado. Após açoitá-lo, os guardas do rei admoestaram-no: "ó ser malvado! Não há lugar para ti aqui."

 

Contudo, Dhrshtabuddhi foi libertado de suas tribulaçöes por seu pai e imediatamente depois, entrou na densa floresta. Perambulou aqui e ali, esfomeado e sedento, sofrendo muito. Eventualmente ele começou a matar leöes, veados, javalis, e lobos para alimento. Sempre pronto em sua mão estava seu arco, e sempre em seu ombro havia uma aljava cheia de pontiagudas flechas. Também matava aves, tais como cakoras, pavöes, kankas, pombos e tordos. Sem hesitar massacrava muitas espécies de aves e animais, e assim seus pecados cresciam dia a dia. Devido a seus pecados anteriores, agora estava imerso num grande oceano de pecado.

 

Dhrshtabuddhi estava sempre infeliz e ansioso, mas certo dia, durante o mês de Vaisakha, pela força de um pouco de seu mérito passado, acabou encontrando o sagrado ashrama de Kaundinya Muni. O grande sábio acabava de se banhar no Rio Ganges, e pingava de água. Dhrshtabuddhi teve a boa fortuna de tocar algumas destas gotas que caíam das roupas do sábio. Instantaneamente Dhrshtabuddhi se viu livre da ignorância, e suas reaçöes pecaminosas foram reduzidas. Oferecendo suas humildes reverências a Kaundinya Muni, Dhrshtabuddhi orou a ele de mãos postas: "ó grande brahmana, por favor descreva algum tipo de expiação que posso realizar sem muito esforço demais. Cometi tantos pecados em minha vida, e agora eles me tornaram pobre."

 

O grande rishi respondeu: "ó filho, ouça com grande atenção, pois por me ouvir irás ficar livre de todos teu pecados restantes. Na quinzena clara deste mês, Vaisakha, ocorre o sagrado Mohini Ekadashi, que tem poder de nulificar pecados vastos e pesados como o Monte Sumeru. Se seguires meu conselho e fielmente observares jejum neste Ekadashi, que é tão querido pelo Senhor Hari, será liberto de todas reaçöes pecaminosas de muitas, muitas vidas."

 

Ouvindo estas palavras com grande alegria, Dhrshtabuddhi prometeu observar um jejum no Mohini Ekadashi de acordo com as instruçöes do sábio. ó melhor dos reis, ó Rama, por jejuar completamente no Mohini Ekadashi, o antes pecaminoso Dhrshtabuddhi, filho pródigo do mercador Dhanapala, ficou sem pecado. Depois ele conseguiu uma bela forma transcendental e, livre de todos obstáculos, cavalgou Garuda, a montaria de Vishnu, para a morada suprema do Senhor.

 

ó Rama, o dia de jejum de Mohini Ekadashi remove os mais obscuros apegos ilusórios à existência material. Portanto não melhor dia de jejum em todos três mundos."

 

O Senhor Krishna concluiu: "E assim, ó Yudhishthira, não há local de peregrinação, nem sacrifício, nem caridade que possa conceder mérito igual a mesmo uma décima sexta parte do mérito que um devoto fiel a Mim obtém por observar Mohini Ekadashi. E aquele que ouve e estuda as glórias do Mohini Ekadashi, obtém o mérito de dar mil vacas em caridade."

 

Assim termina a narrativa das glórias de Vaisakha-sukla Ekadasi, ou Mohini Ekadasi, do Kurma Purana.

 

Notas:

 

(1) Se o sagrado jejum cair no Dvadashi, ainda assim é chamado de Ekadashi nas literaturas védicas. Além do mais, no Garuda Purana 1.125.6 o Senhor Brahma declara para Narada Muni: brahmana, este jejum deve ser observado quando há um Ekadashi pleno, uma mistura de Ekadashi e Dvadashi, ou mistura de três (Ekadashi, Dvadashi e Trayodashi), mas nunca no dia quando houver mistura de Dashami e Ekadashi."

 

13 APARA EKADASHI

 

Yudhishthira Maharaja disse: "ó Janardana, qual é o nome do Ekadashi que ocorre durante a quinzena obscura do mês de Jyeshtha (mai/jun)? Desejo ouvir as glórias deste dia sagrado. Por favor narra-me tudo."

 

O Senhor Sri Krishna disse: "ó rei, tua indagação é maravilhosa porque a resposta irá beneficiar toda sociedade humana. Este Ekadashi é tão sublime e meritório que até mesmo os maiores pecados podem ser apagados por sua potência. ó grande rei, o nome deste ilimitadamente meritório Ekadashi é Apara Ekadashi. Quem quer que jejue neste dia sagrado se torna famoso em todo universo. Mesmo tais pecados como matar um brahmana, uma vaca, ou um embrião; blasfêmia; ou ter sexo com a esposa de outro homem são completamente erradicados por observar Apara Ekadashi.

 

ó rei, pessoas que dão falso testemunho são muito pecaminosas. Uma pessoa que glorifica falsa ou sarcasticamente outra; quem engana enquanto pesa algo numa balança; quem deixa de executar os deveres de seu varna ou ashrama (um homem desqualificado que posa como brahmana, por exemplo, ou uma pessoa que recita os Vedas erroneamente); quem inventa suas próprias escrituras; quem engana os outros; quem é astrólogo charlatão, contador trapaceiro, ou falso médico ayurvédico - todos estes certamente são tão maus quanto uma pessoa que dá falso testemunho, e estão destinados ao inferno. Mas simplesmente por obervar Apara Ekadashi, todos estes pecadores se tornam completamente livres de suas reaçöes pecaminosas.

 

Guerreiros que caem de seu kshatriya-dharma e fogem do campo de batalha vão para um inferno bárbaro. Porém, ó Yudhishthira, mesmo tal kshatriya caído, se observar jejum no Apara Ekadashi, se liberta desse grande pecado e vai para o céu.

 

É o maior pecado o discípulo que, após receber uma devida educação espiritual de seu mestre espiritual, vira-se e o blasfema. Esse assim-chamado discípulo sofre ilimitadamente. Mas até ele, se simplesmente observar Apara Ekadashi, pode alcançar o mundo espiritual. Ouça, ó rei, enquanto descrevo mais as glórias deste Ekadashi.

 

O mérito obtido por quem realiza todos seguintes atos de piedade é igual ao mérito obtido por quem observa Apara Ekadashi: tomar banho três vezes ao dia em Pushkara-kshetra (1) durante Kartika (out/nov); tomar banho em Prayag no mês de Magha (jan/fev) quando o sol está no zodíaco; prestar serviço ao Senhor Shiva em Varanasi durante Shiva-ratri; oferecer oblaçöes aos antepassados da pessoa em Gaya; tomar banho no sagrado Rio Gautami quando Júpiter transita em Leão; obter darshana do Senhor Shiva em Kedaranatha; ver o Senhor Badrinatha quando o sol transita no signo de Aquário; e tomar banho na época do eclipse solar em Kurukshetra e dar vacas, elefantes, e ouro em caridade ali. Todo mérito que se recebe por realizar estes atos piedosos é obtido por uma pessoa que observa este jejum de Apara Ekadashi. Também, o mérito obtido por quem doa uma vaca prenha, junto com ouro e terra fértil, é obtido por quem jejua neste dia.

 

Em outras palavras, Apara Ekadashi é um machado que corta a árvore plenamente madura dos atos pecaminosos; é um incêndio florestal que queima pecados como se fossem lenha; é o sol que arde diante de nossos obscuros maus atos, e é o leão espreitando a mansa corça da impiedade. Portanto, ó Yudhishthira, quem quer que verdadeiramente tenha medo de seus pecados do passado e presente deve observar Apara Ekadashi mui estritamente. Quem não observa este jejum deve nascer novamente no mundo material, assim como uma bolha entre milhöes numa enorme expansão d'água, ou como uma pequena formiga entre todas outras espécies. (2)

 

Portanto devemos observar fielmente o sagrado Apara Ekadashi e adorar a Suprema Personalidade de Deus, Sri Trivikrama. Quem faz isto é libertado de todos seus pecados e promovido à morada do Senhor Vishnu.

 

ó Bharata, para benefício de toda humanidade, descrevi assim para ti a importância do sagrado Apara Ekadashi. Qualquer um que ouça ou leia esta descrição certamente se livra de todos tipos de pecados, ó rei."

 

Assim termina a narrativa das glórias de Jyeshtha-krsna Ekadasi, ou Apara Ekadasi, do Brahmanda Purana.

 

Notas:

 

(1) Pushkara-kshetra, na India ocidental, é realmente o único local na terra onde se encontra um templo fidedigno do Senhor Brahma.

 

(2) Os Vedas declaram narah budhuda samah: "A forma humana de vida é tal como uma bolha na água." Na água, muitas bolhas se formam e então repentinamente estouram alguns segundos depois. Assim se uma pessoa não utiliza seu raro corpo humano para servir a Suprema Personalidade de Deus, Sri Krishna, sua vida não tem mais valor ou permanência que uma bolha na água. Portanto, como o Senhor recomenda aqui, devemos serví-Lo por jejuar no Hari-vasara ou Ekadashi.

 

Neste sentido, Srila Prabhupada escreve no Srimad-Bhagavatam 2.1.4, significado: "O grande oceano da natureza material está se agitando com as ondas do tempo, e as assim-chamadas condiçöes de vida são algo como as bolhas espumantes, que aparecem diante de nós como o eu corpóreo, esposa, filhos, sociedade, conterrâneos, etc. Devido a uma falta de conhecimento do eu, nos tornamos vitimados pela força da ignorância e assim estragamos a valiosa energia da vida humana numa busca vã atrás de condiçöes de vida permanentes, que é impossível neste mundo material."

 

14 NIRJALA EKADASHI

 

Certa vez Bhimasena, irmão mais novo de Maharaja Yudhishthira, perguntou ao grande sábio Srila Vyasadeva, avô dos Pandavas, se é possível retornar ao mundo espiritual sem ter observado as regras e regulaçöes dos jejuns de Ekadashi.

 

Bhimasena disse: "ó mui inteligente avô, meu irmão Yudhishthira, minha querida mãe Kunti, e minha amada esposa Draupadi, bem como Arjuna, Nakula e Sahadeva, jejuam completamente no Ekadashi e seguem estritamente todas regras e regulaçöes desse dia sagrado. Sendo muito religiosos, sempre me dizem que também devo jejuar nesse dia. Mas, ó avô, eu lhes digo que não consigo viver sem comer, porque a fome é intolerável para mim. Dou bastante caridade e adoro completamente Sri Keshava, mas não consigo jejuar no Ekadashi. Por favor diga-me como posso obter o mesmo resultado sem jejuar."

 

Ouvindo estas palavras, Srila Vyasadeva respondeu: "Se desejas ir para os planetas celestiais e evitar os planetas infernais, deves de fato observar um jejum tanto no Ekadashi iluminado como no obscuro."

 

Bhima disse: "ó avô muito inteligente, por favor ouça minha súplica. ó maior dos munis, como não consigo viver se apenas comer uma vez por dia, como conseguirei viver se jejuar completamente? Dentro de meu estômago arde um fogo especial chamado vrka, o fogo da digestão. (1) Só quando como até ficar completamente satisfeito é que esse fogo em meu estômago também fica satisfeito. ó grande sábio, talvez conseguisse jejuar apenas uma vez, portanto imploro-te que me digas qual Ekadashi inclui todos outros Ekadashis. Observarei fielmente esse jejum e espero que assim me torne qualificado para liberação."

 

Srila Vyasadeva respondeu: "ó rei, ouviste de mim sobre vários tipos de deveres ocupacionais, tais como cerimônias védicas elaboradas. Na Kali-yuga, entretanto, ninguém irá conseguir observar todos esses deveres ocupacionais corretamente. Por isso contarei agora, como sem quase nenhuma despesa, se pode aguentar uma pequena austeridade e conseguir o maior benefício e resultante felicidade. A essência do que está escrito nas literaturas védicas conhecidas como os Puranas é que não se deve comer nem no Ekadashi da quinzena iluminada e nem no da obscura. (2) Quem jejua no Ekadashi é salvo de ir para planetas infernais."

 

Ouvindo as palavras de Vyasadeva, Bhimasena, o mais forte de todos guerreiros, ficou com medo e começou a tremer como uma folha numa árvore banyan com vento forte. O assustado Bhimasena disse: "ó avô, que devo fazer? Sou completamente incapaz de jejuar duas vezes por mês o ano todo! Por favor conte-me sobre algum dia de jejum que possa conceder-me o maior benefício!"

 

Vyasadeva respondeu: "Sem beber nem mesmo água, deves jejuar no Ekadashi que ocorre durante a quinzena clara do mês de Jyeshtha (mai/jun), quando o sol transita pelo signo de Gêmeos e Touro. Segundo as personalidades sábias, nesse dia se pode tomar banho e realizar acamana para purificação. Mas enquanto se realiza acamana se pode tomar apenas aquela quantidade de água igual a uma gota de ouro, ou a quantidade que pode submergir apenas uma semente de mostarda. Só essa quantidade de água deve ser colocada na palma em forma de orelha de vaca. Se bebermos mais água que isso, seria como se tivessemos bebido vinho.

 

Certamente não se deve comer nada, pois assim fazendo quebra-se o jejum. Este jejum rígido com efeito vai do nascer do sol no Ekadashi até o nascer do sol de Dvadashi. Se uma pessoa tenta observar esse grande jejum mui estritamente, facilmente consegue os resultados de observar todos vinte e quatro jejuns de Ekadashi pelo ano todo.

 

No Dvadashi o devoto deve tomar banho cedo de manhã. Então, conforme as regras e regulaçöes prescritas, e dependendo de sua capacidade, deve dar algum ouro e água a um brahmana digno. Finalmente, deve honrar prasadam alegremente com um brahmana.

 

ó Bhimasena, aquele que consegue jejuar neste Ekadashi especial desta maneira, colhe o benefício de ter jejuado em todos Ekadashis durante o ano. Não há dúvida quanto a isso. ó Bhima, agora ouça o mérito específico que se consegue por jejuar neste Ekadashi. O Supremo Senhor Keshava, que segura uma concha, disco, maça, e lótus, contou pessoalmente para mim: "Todos devem refugiar-se em Mim e seguir Minhas instruçöes." Então Ele me contou que quem jejua neste Ekadashi sem beber água ou comer, se torna livre de todas reaçöes pecaminosas, e quem observa esse difícil jejum nirjala no Jyeshtha-sukla Ekadashi verdadeiramente colhe o benefício de todos outros jejuns de Ekadashi.

 

ó Bhimasena, na Kali-yuga, a era da discórdia e hipocrisia, quando todos princípios dos Vedas terão sido destruídos ou grandemente minimizados, e em que não haverá a devida caridade ou observância dos antigos princípios védicos e cerimônias, como haverá algum meio de purificar o eu? Mas existe a oportunidade de jejuar no Ekadashi e ficar livre de todos pecados passados.

 

ó filho de Vayu, que mais posso dizer-te? Não deves comer durante os Ekadashis iluminado e obscuro, e deves até mesmo deixar de tomar água no dia particularmente auspicioso de Jyeshtha-sukla Ekadashi. ó Vrkodara, quem quer que jejue neste Ekadashi recebe os méritos de tomar banho em todos lugares de peregrinação, dar todo tipo de caridade, e jejuar em todos Ekadashis claros e escuros. Quanto a isso não há dúvida. ó tigre entre os homens, quem quer que jejue neste Ekadashi verdadeiramente se torna uma grande pessoa e obtém toda fortuna, lucros, força, e sáude. E no atemorizante momento da morte, os terríveis Yamadutas, cuja tez é amarela e negra, e que brandem grandes maças e giram no ar místicas cordas pasha, recusar-se-ão a se aproximar. Em vez disso, tal alma fiel será imediatamente levada para a morada suprema do Senhor Vishnu pelos Vishnudutas, cujas formas trascendentalmente belas vestem maravilhosas roupas amareladas e que seguram um disco, maça, concha e lótus em suas quatro mãos. É para obter todos esses benefícios que se deve certamente jejuar neste mui importante Ekadashi, até mesmo de água."

 

Quando os outros Pandavas ouviram sobre os benefícios a serem obtidos por seguir Jyeshtha-sukla Ekadashi, resolveram observá-lo exatamente como Srila Vyasadeva o havia explicado a seu irmão Bhimasena. Todos Pandavas observaram-no evitando comer ou beber qualquer coisa, e assim até o dia de hoje é conhecido como Pandava-nirjala Ekadashi. (3)

 

Srila Vyasadeva continuou: "ó Bhima, portanto deves observar este importante jejum para remmover todas tuas reaçöes pecaminosas passadas. Deves orar à Suprema Personalidade de Deus, o Senhor Sri Krishna, desta maneira: "ó Senhor de todos semideuses, ó Suprema Personalidade de Deus, hoje vou observar Ekadashi sem tomar qualquer água. ó ilimitado caridade durante este Ekadashi, se por alguma razão ou outra não puder, então deverá dar a algum brahmana qualificado um tecido ou um pote cheio d'água. De fato, o mérito obtido por dar só água iguala aquele obtido por dar ouro dez milhöes de vezes por dia.

 

ó Bhima, o Senhor Krishna disse que quem quer que observe este Ekadashi deve tomar um banho sagrado, dar caridade a uma pessoa digna, cantar os santos nomes do Senhor num japa-mala, e realizar algum tipo de sacrifício recomendado, pois por fazer estas coisas neste dia se recebe benefícios imperecíveis. Não há necessidade de realizar qualquer outro tipo de dever religioso. Observância só deste jejum de Ekadashi promove a pessoa à suprema morada de Sri Vishnu. ó melhor dos Kurus, se doarmos ouro, tecido ou qualquer outra coisa neste dia, o mérito que se obtém é imperecível.

 

Lembra-te, quem quer que coma grãos no Ekadashi se torna contaminado pelo pecado e na verdade come apenas pecado. Com efeito, já se tornou um comedor de cachorros, e após a morte irá sofrer uma existência infernal. Mas aquele que observa este sagrado Jyeshtha-sukla Ekadashi e dá algo em caridade certamente obtém a liberação do ciclo de repetidos nascimentos e morte e alcança a morada suprema. Observar este Ekadashi, que vem junto com Dvadashi, liberta a pessoa do horrível pecado de matar um brahmana, beber bebida alcoólica e vinho, ter inveja do próprio mestre espiritual, e ignorar suas instruçöes, e continuamente contar mentiras.

 

Além do mais, ó melhor dos seres, qualquer homem ou mulher que observa este jejum devidamente e adora o Senhor Supremo Jalashayi (Aquele que dorme sobre a água), e que no dia seguinte satisfaz um brahmana qualificado com doces agradáveis e uma doação de vacas e dinheiro - tal pessoa certamente agrada ao Supremo Senhor Vasudeva, tanto que cem geraçöes anteriores em sua família indubitavelmente vão para a morada do Senhor Supremo, muito embora possam ter sido muito pecaminosos, ou de mau caráter, e culpados de suicídio. De fato, quem observa este Ekadashi andará num glorioso aeroplano celestial (vimana) até aquela morada.

 

Quem nesse dia dá a um brahmana um pote d'água, uma sombrinha, ou calçados certamente vai para o céu. De fato, aquele que simplesmente ouve estas glórias também alcança a morada transcendental do Senhor Supremo, Sri Vishnu. Quem quer que realize a cerimônia shraddha para os antepassados no dia da lua obscura chamado amavasya, particularmente se ocorre na época do eclipse solar, indubitavelmente obtém grande mérito. Mas este mesmo mérito é obtido por quem simplesmente ouve esta sagrada narrativa - tão poderoso e tão querido pelo Senhor é este Ekadashi.

 

Deve-se limpar os dentes devidamente e, sem comer ou beber, observar este Ekadashi para agradar o Supremo Senhor Keshava. No dia depois de Ekadashi se deve adorar a Suprema Personalidade de Deus em Sua forma como Trivikrama oferecendo a Ele água, flores, incenso, e uma luminosa lamparina acesa. Então o devoto deve orar de coração: "ó Senhor dos senhores, ó salvador de todos, ó Hrsikesha, senhor dos sentidos, tenha a bondade de conceder-me a dádiva da liberação, embora não te possa oferecer nada mais que este humilde pote cheio d'água." Então o devoto deve doar o pote d'água a um brahmana.

 

ó Bhimasena, após observar este jejum de Ekadashi e doar os artigos recomendados conforme sua capacidade, o devoto deve alimentar brahmanas e depois disso honrar prasadam silenciosamente.

 

Srila Vyasadeva concluiu: "Recomendo grandemente que jejues neste auspicioso, purificante Dvadashi devorador de pecados, da maneira como descrevi. Assim ficarás completamente livre de todos pecados e alcançarás a morada suprema."

 

Assim termina a narrativa das glórias de Jyeshtha-sukla Ekadasi, ou Bhimaseni-nirjala Ekadasi, do Brahma-vaivarta Purana.

 

(1) Agni, o deus do fogo, descende do Senhor Vishnu através de Brahma, de Brahma a Angirasa, de Angirasa a Brhaspati, e de Brhaspati a Samyu, que era pai de Agni. Ele é o porteiro encarregado de Nairrtti, a direção sudeste. Ele é um dos oito elementos materiais, e tal como Parikshit Maharaja, é muito perito em examinar coisas. Examinou Maharaja Sibi uma vez virando um pombo. (Para mais informação vide Srimad-bhagavatam de Srila Prabhupada 1.12.20 significado).

 

Agni se divide em três categorias: Davagni, o fogo na madeira; Jatharagni, o fogo da digestão no estômago; e Vadavagni, o fogo que cria neblina quando correntes quentes e frias se misturam no oceano. Outro nome para o fogo da digestão é Vrka. Era este poderoso fogo que residia no estômago de Bhimasena.

 

2. Conforme declarado no Srimad-bhagavatam 12.13.12 e 15, o próprio Bhagavatam é a essência de toda filosofia Vedanta (sara-vedanta-saram), e a mensagem inequívoca do Bhagavatam é plena rendição ao Senhor Krishna e a prestação de serviço devocional amoroso a Ele. Observar Ekadashi estritamente é um grande auxílio neste processo e aqui Srila Vyasadeva está simplesmente sublinhando para Bhima a importância do Ekadashi.

 

3. Embora astrologicamente o jejum caia no Dvadashi, na civilização védica ainda é conhecido como Ekadashi.

 

15 YOGINI EKADASHI

 

Yudhishthira Maharaja disse: "ó Senhor Supremo, ouvi as glórias do Nirjala Ekadashi, que ocorre durante a quinzena clara do mês de Jyeshtha. Agora desejo ouvir sobre o Ekadashi que ocorre durante a parte obscura do mês de Ashadha (jun/jul). Tenha a bondade de descrevê-lo para mim em detalhe, ó matador do demônio Madhu."

 

O Senhor Supremo, Sri Krishna, respondeu: "ó rei, vou contar sobre o melhor dos dias de jejum, o Ekadashi que vem durante a parte obscura do mês de Ashadha. Famoso como Yogini Ekadashi, remove todos tipos de reaçöes pecaminosas e concede a liberação suprema.

 

ó melhor dos reis, este Ekadashi salva pessoas que estão se afogando no vasto oceano da existência material e as transporta para a margem do mundo espiritual. Em todos três mundos, é o principal entre os sagrados dias de jejum. Vou revelar esta verdade a ti narrando a história recontada nos Puranas.

 

O rei de Alakapuri - Kuvera, o tesoureiro dos semideuses - era um devoto firme do Senhor Shiva. Empregava um servo chamado Hemamali como seu jardineiro pessoal. Hemamali, um Yaksha, tinha muita atração luxuriosa por sua deslumbrante esposa, Svarupa-vati, que tinha grandes olhos encantadores.

 

O dever diário de Hemamali era visitar o Lago Manasarovara e trazer de volta flores para seu patrão Kuvera, que então eram usadas para adorar o Senhor Shiva. Certo dia, após colher as flores, Hemamali foi ter com sua esposa em vez de retornar diretamente ao seu patrão e cumprir com seu dever. Absorto em assuntos amorosos com sua esposa, esqueceu que tinha que retornar à morada de Kuvera.

 

ó rei, enquanto Hemamali estava desfrutando com sua esposa, Kuvera começou a adorar o Senhor Shiva em seu palácio e em breve descobriu que não havia flores prontas para o puja do meio-dia. A falta de um artigo tão importante irou o grande semideus, e ele perguntou a um mensageiro Yaksha: "Porque aquele Hemamali de coração imundo não veio com a oferenda diária de flores? Vai descobrir a razão exata e na volta reporte-se a mim pessoalmente." O Yaksha retornou e contou para Kuvera: "ó caro senhor, Hemamali está desfrutando livremente de sexo com sua esposa."

Kuvera ficou extremamente irado quando ouviu isso e imediatamente intimou o baixo Hemamali a vir diante dele. Sabendo que fossa remisso e que fizera hora sem cumprir com o dever, Hemamali se aproximou do patrão em grande temor. O jardineiro primeiro prestou suas reverências e depois ficou de pé perante seu senhor, cujos olhos haviam se tornado vermelhos de raiva e cujos lábios tremiam. Irado, Kuvera gritou para Hemamali: "ó patife pecaminoso! ó destruidor dos princípios religiosos! És uma ofensa aos semideuses! Por isso te amaldiçôo a sofrer de lepra branca e separar-te de tua amada esposa! Só grande sofrimento é o que mereces! ó tolo de nascimento baixo, deixa este local imediatamente e vai-te para os planetas inferiores!"

 

E assim Hemamali imediatamente caiu de Alakapuri e se tornou doente com a terrível aflição da lepra branca. Acordou numa densa e assustadora floresta, onde não havia nada para comer ou beber. Assim passava seus dias na miséria, incapaz de dormir à noite devido à dor. Sofria tanto no verão quanto no inverno, mas porque continuava a adorar o Senhor Shiva fielmente, sua consciência permanecia pura e constante. Embora implicado em grande pecado e suas reaçöes concomitantes, lembrava de sua vida passada devido a sua piedade.

 

Após vagar durante algum tempo aqui e ali, por montanhas e planícies, Hemamali eventualmente chegou à vasta cadeia do Himalaia. Ali teve a boa fortuna de encontrar com o grande santo Markandeya Rishi, o melhor dos ascetas, cuja duração de vida, dizem, se estende a sete dias de Brahma. (1) Markandeya estava sentado pacificamente em seu ashrama, parecendo tão refulgente quanto um segundo Brahma. Hemamali, sentindo-se muito pecaminoso, ficou a certa distância do magnífico sábio e ofereceu suas humildes reverências e oraçöes. Sempre interessado no bem-estar dos outros, Markandeya viu o leproso e clamou: "ó tu, que espécie de atos pecaminosos realizaste para merecer esta horrível aflição?"

 

Ouvindo isso, Hemamali respondeu: "Caro senhor, sou um servo Yaksha do Senhor Kuvera, e meu nome é Hemamali. Era meu serviço diário pegar flores do Lago Manasarovara para a adoração de meu patrão ao Senhor Shiva, mas certo dia atrasei na hora de voltar com a oferenda porque fui tomado de paixão por minha bela esposa. Quando meu patrão descobriu que estava atrasado, amaldiçôou-me com muita ira. Assim agora estou sem casa, esposa, e serviço. Mas afortunadamente encontrei com o senhor, e agora espero receber sua auspiciosa benção, pois sei que devotos do Senhor Supremo sempre trazem o interesse dos outros bem no alto de seus coraçöes. Essa é sua grande natureza. ó melhor dos sábios, por favor ajude-me!" (2)

 

Markandeya Rishi respondeu: "Porque me contaste a verdade, vou contar-te sobre um dia de jejum que irá beneficiar-te grandemente. Se jejuares no Ekadashi que vem durante a quinzena obscura do mês de Ashadha, irás certamente ficar livre desta terrível maldição." Ao ouvir estas abençoadas palavras do conhecido sábio, Hemamali caiu ao solo em completa gratidão e ofereceu suas humildes reverências. Mas Markandeya ficou de pé e levantou Hemamali, enchendo-o de inexprimível felicidade.

 

Assim, como o sábio o instruíra, Hemamali fielmente observou o jejum de Ekadashi, e por sua influência novamente se tornou um belo Yaksha. Então retornou para casa, onde viveu feliz com sua esposa."

 

O Senhor Krishna concluiu: "Assim, como podes prontamente ver, ó Yudhishthira, esse jejum no Yogini Ekadashi é muito poderoso e auspicioso. Qualquer mérito que se obtenha por alimentar quarenta e oito mil piedosos brahmanas também é obtido por simplesmente observar um jejum estrito no Yogini Ekadashi. Para quem jejua neste sagrado Ekadashi, montes de reaçöes pecaminosas passadas são destruídas e ele faz com que a pessoa se torne piedosa. ó rei, assim explique-te a pureza do Yogini Ekadashi."

 

Assim termina a narrativa das glórias de Ashadha-krsna Ekadasi, ou Yogini Ekadasi, do Brahma-vaivarta Purana.

 

Notas:

 

(1) Um dia de Brahma (doze horas) é dito durar mil ciclos das quatro yugas - Satya, Treta, Dvapara, e Kali. Como estas quatro eras duram 4.320.000 anos, um dia de 24 horas completas de Brahma é de aproximadamente 60.480.000.000 anos. Este é o espantoso tempo de vida de Markandeya, o mais longo da terra.

 

(2) A literatura védica declara:

 

pibanti nadya svayam eva na jalam

svayam na khadhanti phalani vrksha

nadanti sashyam khalu parivaha

paropakaraya satam vibhutayah

 

"Assim como os rios não bebem sua própria água mas fluem para benefício dos outros, assim como as árvores frutíferas não comem seu próprio fruto mas produzem-no para os outros, e assim como as nuvens não bebem sua própria chuva mas chovem para os outros, também os santos vivem simplesmente para os outros."

 

Chanakya Pandita diz:

 

sadhunam darshanam punyam

tirtha-bhutar hi sadhavah

kalena phalate tirtha

sadyah sadhu-samagamah

 

"Meramente ver um devoto puro de Krishna é mais purificante que visitar um local de peregrinação sagrado, pois enquanto um lugar santo pode purificar depois de longo tempo, a vista de um devoto puro purifica imediatamente."

 

(3) Porque Hemamali desejou retornar aos planetas celestiais e sua esposa, sua observância do Ekadashi resultou na obtenção de sua meta material. Mas um devoto de Krishna observa Ekadashi apenas com o desejo de aumentar sua devoção pelo Senhor e assim ele obtém um resultado espiritual.

 

16 PADMA EKADASHI

 

Yudhishthira Maharaja disse: "ó Keshava, qual o nome do Ekadashi que ocorre durante a quinzena clara do mês de Ashadha (jun/jul)? Qual é a Deidade adorável para esse dia auspicioso, e qual o processo de observá-lo?"

 

O Senhor Sri Krishna respondeu: "ó zelador deste planeta terreno, de bom grado contar-te-ei uma maravilhosa história que o Senhor Brahma certa vez narrou a seu filho Naradaji.

 

Certo dia Narada perguntou a seu pai: "Qual o nome do Ekadashi que vem durante a parte clara do mês de Ashadha? Por gentileza conta-me como posso observar este Ekadashi e assim agradar o Senhor Supremo, Vishnu."

 

O Senhor Brahma respondeu: "ó grande orador, ó melhor de todos sábios, ó mais puro devoto do Senhor Vishnu, tua pergunta é excelente. Não há nada melhor que Ekadashi, o dia do Senhor Hari, neste ou em qualquer outro mundo. Ele nulifica até mesmo os piores pecados se observado corretamente. Por esta razão vou contar-te sobre Ashadha-sukla Ekadashi.

 

Jejuar neste Ekadashi nos purifica de todos pecados e realiza todos nossos desejos. Portanto, quem quer que deixe de obserar este sagrado dia de jejum é um bom candidato a entrar no inferno. Ashadha-sukla Ekadashi também é famoso como Padma Ekadashi. Só para agradar a Hrshikesha, o senhor dos sentidos, deve-se jejuar neste dia. Ouça cuidadosamente, ó Narada, enquanto relato para ti uma história maravilhosa das escrituras sobre este Ekadashi. Apenas por ouvir este relato já se destroem todos tipos de pecados, junto com todos obstáculos na senda da perfeição espiritual.

 

ó filho, certa vez havia um rei santo na dinastia solar cujo nome era Mandhata. Porque sempre defendia a verdade, foi nomeado imperador. Cuidava de seus súditos como se fossem seus próprios filhos. Devido a sua piedade e grande religiosidade, não havia pestilência, seca, ou doença de qualquer tipo em seu reino. Todos seus súditos não só estavam livres de todos tipos de perturbaçöes mas também eram muito ricos. O tesouro do próprio rei estava livre de dinheiro ganho por meios não-recomendados, e assim ele governou felizmente por muitos anos.

 

Certa vez entretanto, devido a algum pecado em seu reino, houve seca durante três anos. Os súditos viram-se atormentados pela fome. A falta de grãos alimentícios tornava impossível para eles realizarem os sacrifícios védicos, oferecer oblaçöes a seus antepassados e semideuses, realizarem adoração ritualística, ou até mesmo estudar as literaturas védicas. Finalmente, todos vieram diante do amado rei numa grande assebléia e disseram: "ó rei, sempre tratas de nosso bem-estar, portanto humildemente imploramos vossa assistência agora. Todo mundo e tudo neste mundo precisa de água. Sem água, quase tudo se torna inútil ou morto. Os Vedas chamam a água de nara, e porque a Suprema Personalidade de Deus dorme sobre a água, Seu nome é Narayana. Deus faz Sua própria morada na água e ali faz Seu descanso. (1) Na Sua forma como as nuvens, o Senhor Supremo está presente pelo céu afora e derrama a chuva, da qual crescem os grãos que mantém toda entidade viva.

 

ó rei, a severa seca causou uma falta de valiosos grãos; assim estamos sofrendo, e a população está diminuindo. ó melhor governante da terra, por favor encontre alguma solução para este problema e traga-nos uma vez mais a paz e prosperidade."

 

O rei respondeu: "Falais a verdade, pois os grãos são como Brahman, a Verdade Absoluta, que vive dentro dos grãos e assim sustenta todos seres. De fato, é por causa dos grãos que o mundo inteiro vive. Agora, porque está havendo uma terrível seca no nosso reino? As escrituras sagradas discutem este assunto mui profundamente. Se um rei é irreligioso, tanto ele como seus súditos sofrem. Meditei na causa de nosso problema durante muito tempo, mas após examinar meu caráter passado e atual, honestamente posso dizer que não encontro pecado. Ainda assim, para o bem de todos vós súditos, tentarei remediar a situação."

 

Pensando assim, o Rei Mandhata reuniu seu exército e séquito, prestou suas reverências a Mim, e depois entrou na floresta. Vagou por aqui e por ali, buscando grandes sábios em seus ashramas e indagando sobre como resolver a crise em seu reino. Afinal encontrou o ashrama de um de Meus outros filhos, Angira Muni, cuja refulgência iluminava todas direçöes. Sentado em seu eremitério, Angira parecia um segundo Brahma. O rei Mandhata estava muito feliz por ver esse exaltado sábio, cujos sentidos estavam completamente sob controle.

 

O rei imediatamente desmontou de seu cavalo e ofereceu suas respeitosas reverências aos pés de lótus de Angira Rishi. Então o rei juntou suas palmas e orou por suas bençãos. Aquela pessoa santa reciprocou abençoando o rei com mantras sagrados, depois perguntou-lhe sobre o bem-estar dos sete membros de seu reino. (2)

 

Após contar ao sábio como iam os sete membros de seu reino, o rei Mandhata perguntou sobre a felicidade do próprio sábio. Então Angira Rishi perguntou ao rei porque empreendera tão difícil jornada na floresta, e o rei contou-lhe sobre a aflição que seu reino estava passando. O rei disse: "ó grande sábio, estou governando e mantendo meu reino enquanto sigo as injunçöes védicas, e assim não sei qual o motivo da seca. Para resolver este mistério, aproximei-me de ti para tua ajuda. Por favor ajuda-me a aliviar o sofrimento de meus súditos."

 

Angira Rishi disse para o rei: "A presente era, Satya-yuga, é a melhor de todas eras, pois nessa era o Dharma se apoia nas quatro pernas. (3) Nesta era todos respeitam brahmanas como os membros mais elevados da sociedade. Também, todos cumprem com seus deveres ocupacionais, e apenas brahmanas duas-vezes nascidos podem realizar austeridades védicas e penitências. Embora isto seja o padrão, ó leão entre os reis, há um shudra que ilegalmente realiza os ritos da austeridade e penitência em teu reino. É por isso que não há chuva no teu país. Por isso deves castigar este trabalhador com a morte, pois por assim fazer removerás a contaminação e restituirás a paz aos teus súditos."

 

O rei replicou: "Como posso matar um realizador de austeridades sem ofensa? Por favor dá-me alguma solução espiritual."

 

O grande sábio Angira disse: "ó rei, deves observar um jejum no Ekadashi que ocorre durante a quinzena clara do mês de Ashadha. Este dia auspicioso se chama Padma Ekadashi, e por sua influência abundantes chuvas certamente retornarão a teu reino. Este Ekadashi confere a perfeição tanto aos fiéis observadores, como remove todo tipo de maus elementos, e destrói todos obstáculos na senda da perfeição. ó rei, tu, teus parentes e teus súditos devem todos observar este sagrado jejum de Ekadashi. Então tudo em vosso reino irá indubitavelmente retornar ao normal."

 

Ao ouvir estas palavras, o rei ofereceu suas reverências e depois retornou a seu palácio. Quando chegou Padma Ekadashi, o rei Mandhata reuniu todos os brahmanas, kshatriyas, vaishyas e shudras em seu reino e instruiu-os a observarem estritamente este importante dia de jejum. Depois que o haviam observado, caíram as chuvas, assim como o sábio havia predito, e no devido tempo houve colheitas fartas e uma rica safra de grãos. Pela misericórdia do Senhor Supremo Hrishikesha, o senhor de todos sentidos, todos súditos do rei Mandhata se tornaram extremamente felizes e prósperos.

 

Portanto, ó Narada, todos devem observar este jejum de Ekadashi mui estritamente, pois confere toda sorte de felicidade, bem como a liberação final, ao devoto fiel."

 

O Senhor Sri Krishna concluiu: "Meu querido Yudhishthira, Padma Ekadashi é tão poderoso que se pode simplesmente ler ou ouvir suas glórias e ficar completamente sem pecado. ó Pandava, quem deseja agradar-Me deve observar estritamente este Ekadashi, que também é conhecido como Deva-shayani Ekadashi. (1) ó leão entre os reis, quem quer que queira liberação deve regularmente jejuar neste Ekadashi, que também é o dia em que o jejum de Chaturmasya principia."

 

Assim termina a narrativa das glórias de Ashadha-sukla Ekadasi, ou Padma Ekadasi, do Bhavishya-uttara Purana.

 

Notas:

 

(1) Dizem que três coisas não podem existir sem água: pérolas, seres humanos, e farinha. A qualidade essencial de uma pérola é seu brilho, e isso é devido à água. A essência de um homem é seu sêmen, cujo principal componente é água. E sem água, não se pode transformar farinha em massa para depois cozinhar e comer. As vezes a água é chamada de jala narayana, o Senhor Supremo na forma da água.

 

(2) Os sete membros do domínio de um rei são o próprio rei, seus ministros, seu tesouro, suas forças armadas, seus aliados, os brahmanas, os sacrifícios realizados em seu reino, e as necessidades de seus súditos.

 

(3) As quatro pernas do Dharma são veracidade, austeridade, misericórdia e limpeza.

 

(4) Deva-shayani ou Vishnu-shayani, indica o dia em que o Senhor Vishnu vai dormir com todos semideuses. É dito que depois desse dia não se deve realizar quaisquer novas cerimônias até Devotthani Ekadashi, que ocorre durante o mês de Kartika (out/nov), porque os semideuses, estando adormecidos, não podem ser convidados para a arena sacrificial e porque o sol está viajando no curso meridional.

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Danilo Nicolace [Nayana]

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